Porto Alegre, segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Em 2014, quero ser o prefeito da Copa, diz José Fortunati; por Guilherme Kolling e Helen Lopes/Jornal do Comércio
 
O vice-prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), vai comandar a recém-criada Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo (Secopa). Além de garantir que a cidade seja subsede do mais importante evento futebolístico do planeta, o pedetista tem mais um motivo para se esforçar: ele planeja estar no comando da prefeitura em 2014. "Quero ser um bom vice-prefeito para mostrar ao povo de Porto Alegre que tenho condições de vencer as eleições daqui a quatro anos", revela. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Fortunati avalia as alterações no Plano Diretor para a aprovação dos projetos da dupla Grenal e a repercussão dessas medidas no planejamento da cidade.
 
Jornal do Comércio - Dá para dizer que a Copa do Mundo é nossa?
José Fortunati - Diria que as possibilidades são muito grandes. Uma fonte da CBF anunciou que cinco cidades estariam definidas: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. Mas sou cauteloso. Com ampliação de oito para 12 cidades, acho difícil que Porto Alegre fique fora da lista que a Fifa anuncia em março. A Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) deve apresentar um relatório sobre os pontos fortes, medianos e fracos das 18 cidades candidatas em 15 de fevereiro.

JC - Qual o desafio se a cidade for confirmada?
Fortunati - Teremos metas a serem atingidas, com um cronograma, a partir do relatório da ABDIB. Quando se fala em segurança, por exemplo, não é com Exército e Polícia Federal em julho de 2014. A Fifa vai exigir que no final de 2009 tenhamos uma redução de indicadores de criminalidade. Em 2010, idem. Para que em 2014 a sensação de segurança que o turista vai encontrar se dê naturalmente.

JC - Além do desafio de trazer a Copa para a cidade, o senhor tem mais um motivo para se esforçar nesta tarefa: quer ser o próximo prefeito.
Fortunati - Minha intenção é focar ao máximo na Secretaria da Copa, ser um bom vice-prefeito e ir me preparando e mostrando ao povo de Porto Alegre que tenho condições de vencer as eleições daqui a quatro anos. Hoje, sou secretário da Copa. Em 2014, quero ser o prefeito da Copa.

JC - Como funcionará a Secopa?
Fortunati - Trabalhamos nessa questão há um ano. Participamos em março de 2008 de um encontro entre Fifa e CBF, no Rio de Janeiro, acompanhamos os projetos do Internacional e do Grêmio, que tramitaram na Secretaria do Planejamento (SPM). Com a Secopa, criamos uma estrutura específica.

JC - Como será a composição dessa secretaria?
Fortunati - O prefeito decidiu dar tempo determinado para a existência dessa pasta. Caso Porto Alegre não seja escolhida cidade-sede, a secretaria automaticamente se extingue. Sendo escolhida, ela se extingue em 31 de dezembro de 2014. Seria estranho contratarmos pessoas por concurso público em atividades que não são do cotidiano da prefeitura. Por isso, são 16 Cargos de Confiança (CCs), mais o pessoal da estrutura, totalizando 21 pessoas. Vai ter o grupo de gestão técnica, para que a partir do relatório da ABDIB possamos identificar nossos gargalos e verificar de que forma os resolveremos. A busca de recursos ficará com a área institucional.

JC - O senhor falou que começou a trabalhar a Copa quando era secretário de Planejamento. Seria possível conciliar as atividades?
Fortunati - Seria inviável. A SPM tem uma defasagem de técnicos. Aliás, fizemos uma solicitação ao prefeito e estamos começando a receber arquitetos e engenheiros. Faltam 12 profissionais. Por isso, a tramitação de processos acaba sendo mais longa. Não teríamos como retirar profissionais da SPM sem causar prejuízo à cidade. Como a prefeitura tem defasagem de pessoal, optamos por uma estrutura própria, com CCs.

JC - Quais intervenções na cidade serão necessárias?
Fortunati - A duplicação da avenida Beira-Rio e da avenida Tronco, os Portais da Cidade, que qualificariam o transporte coletivo. A Fifa pensa em transporte coletivo, não em transporte privado, porque pensa sob a ótica do turista. Não acredito que a ABDIB apresente o metrô no relatório, mas queremos aproveitar a Copa para viabilizá-lo. Já que o presidente Lula assumiu um compromisso com a Fifa e a CBF de que irá editar o PAC da Copa 2014, a partir de março, Porto Alegre não pode deixar de tentar reivindicar esta obra.

JC - O prefeito disse que o governo federal tem uma "dívida" maior com Porto Alegre, porque a cidade não vai precisar de recursos públicos para os estádios.
Fortunati - O Beira-Rio e a Arena nos dão uma situação diferenciada. Então, vamos aguardar o relatório da ABDIB, verificar quais são as obras de infraestrutura necessárias e apresentar esta conta.

JC - É possível ter dois estádios recebendo os jogos?
Fortunati - Na África do Sul, foram selecionadas dez cidades para a Copa de 2010, mas hoje são apenas sete. Tanto que Johannesburgo vai ter dois estádios. Então, a história de que é impossível ter dois estádios em uma cidade não é verdadeira. Não tenho dúvida de que a Fifa concordou com as 12 cidades por isso. Elas terão o chamado deadline. Se não cumprirem as metas em um determinado período, a Fifa corta.

JC - Os projetos da dupla Grenal tramitaram por dois anos na prefeitura. Não foi possível diminuir as alturas das construções?
Fortunati - Entre os projetos inicialmente apresentados e os que saíram da secretaria, há uma enorme diferença. A começar pelo Olímpico. O projeto da OAS era a construção de um shopping, que ocuparia 100% da área. Seria maior do que o BarraShoppingSul. Eles iriam construir um shopping de 6 hectares, com sete torres comerciais, todas com 52 metros de altura. Mas aquele shopping iria implodir o comércio de rua dos bairros Azenha e Medianeira. Então, negociamos para convencer os empreendedores de que era necessário mudar o perfil do empreendimento. E eles colocaram lojas de rua. Também mudamos os prédios. Estavam previstos 27 edifícios de 52 metros de altura, com uma ocupação quase total do terreno. Optamos por diminuir o número de torres e aumentarmos a altura, de forma homogênea, em uma área ampla, e não se cria nenhum problema urbanístico. Assim, ao invés de 27, teremos 17 torres de 72 metros.

JC - Mas a altura máxima é 52 metros. Isso não abre um precedente?
Fortunati - Se abrimos "o precedente", foi na construção do novo fórum, que defendo, porque ficará próximo à orla do Guaíba. Teria 110 metros de largura, por 52 metros de altura. Isso o Plano Diretor permite. O poder Judiciário poderia construir um paredão de 110 metros de largura, o que seria ruim para aquela área. Nossos técnicos propuseram reduzir o prédio para 50 metros de largura e subir para 82 metros de altura, 27 andares. Dos prédios mais altos recentes, é o mais elevado. Foi uma opção. É só conversar com qualquer urbanista do mundo: eles vão pregar prédios mais estreitos e altos, porque o solo está extremamente valorizado do ponto de vista ambiental, pela permeabilidade, insolação.

JC - Essa preocupação com as alturas ganhou força nos anos 2000, quando foi aplicado o novo Plano Diretor com recuos que não eram suficientes. Ou seja, aumentaram as alturas sem ter esse recuo, esse espaço que os urbanistas defendem.
Fortunati - O Plano Diretor mostrou que um pequeno afastamento com altura de 52 metros não pode ser aceito. Tanto que na revisão do Plano propusemos a redução de 52 metros para 33 metros de altura para bairros como Menino Deus e Petrópolis, onde existe maior concentração de volumetria e densidade humana. O paradigma não é uma torre de 72 metros, que vai causar o problema. Ela vai causar problema se estiver numa área densamente povoada.

JC - Nesse raciocínio, na Arena do Grêmio, no Humaitá, não haveria problema?
Fortunati - No Humaitá ainda é um pré-projeto, mas poderemos ter lá umas 30 torres (de 72 metros) com tranquilidade, porque não é povoado. Na medida em que for apresentado o projeto, se houver problema de plano de voo, claro que as alturas serão rebaixadas. As edificações no Humaitá estarão de acordo com a orientação do controle de voo do aeroporto Salgado Filho.

JC - E no Beira-Rio? Eram necessárias as três torres? A exigência da Fifa não era de só fazer a cobertura do estádio e outras adequações?
Fortunati - Quero lembrar que das 18 cidades pretendentes à Copa, apenas quatro - Porto Alegre, São Paulo, Florianópolis e Curitiba - têm estádios privados. As demais 14 cidades têm estádios públicos, onde vai haver um investimento fantástico de recursos públicos. No Maracanã, serão R$ 500 milhões em cinco anos. Em Salvador, a Fonte Nova vai ser demolida e vão construir um novo estádio. O governador Jacques Wagner (PT) já anunciou que em 2009, 2010 e 2011 destinará R$ 250 milhões para a reconstrução da Fonte Nova. Quero dizer que para construir e reformar um estádio precisa-se de dinheiro. O Internacional não conseguiria fazer as obras do Beira-Rio somente com a venda dos Eucaliptos, que ficou com altura máxima de 33 metros. Os três prédios ao lado do Beira-Rio terão 52 metros, mas estão a pelo menos 255 metros da orla. E são necessários para garantir o financiamento.

JC - Então, a aprovação dos projetos não era condição para que os estádios fossem aprovados pela Fifa. Era simplesmente uma maneira de garantir recursos.
Fortunati - Sim. A CBF diz que até 15 de janeiro os empreendedores ou as cidades terão que apresentar os projetos executivos básicos de engenharia e arquitetura, e os investidores que darão a garantia da construção ou da reforma. O que dá garantia da reforma do Beira-Rio? O que dá garantia da construção da nova Arena? Os outros empreendimentos. Então, tinham que estar casados, a não ser que o prefeito dissesse que iria retirar do orçamento do município os recursos. Em 14 cidades, existe a garantia dos governos.

JC - As três torres do Beira-Rio geraram polêmica por causa da discussão do Pontal do Estaleiro. Vereadores dizem que isso abre um precedente para a derrubada do veto do prefeito ao Pontal.
Fortunati - Em primeiro lugar, pode-se construir na área do Pontal do Estaleiro desde 2002. Esse argumento que os vereadores estão usando não é verdadeiro, porque os prédios não serão residenciais. Então, fica reforçada a tese de que o uso dos prédios na orla deve continuar comercial.

JC - O senhor concordou com o veto do prefeito?
Fortunati - Concordei. Só lamento que as pessoas pensem que o referendo é para decidir se pode ou não construir na área do Pontal. Desde 2002 já pode.

JC - Aqueles 6 prédios de 14 pavimentos da maquete?
Fortunati - Não, porque o índice construtivo ficou em 1.0, o que significa muito menos do que o previsto na maquete, que era em cima do 1.5. A volumetria permanece a mesma, que é muito menor do que a da maquete.

JC - Os 20 vereadores que votaram a favor do Pontal foram ao prefeito dizer que aceitavam o veto e propuseram um referendo. Esses mesmos vereadores queriam derrubar o veto ainda no dia 29 de dezembro. Houve uma "virada de mesa"?
Fortunati - A Câmara foi sensível ao descartar a possibilidade da votação do veto do Pontal no mesmo dia 29, quando se votaram os projetos de Grêmio e Inter. Estamos iniciando uma nova legislatura e tenho dúvidas de que a mesma ênfase dada para a derrubada do veto em 2008 permaneça em 2009, mas respeito. Tudo é possível. Gostaria, como porto-alegrense, que o veto fosse mantido.

JC - Desde o início da revisão do Plano Diretor, em 2003, a prefeitura teve vários secretários do Planejamento. Mas o processo só andou quando o senhor assumiu o cargo e enviou o projeto. Com a sua saída da pasta, pode-se perder esse avanço?
Fortunati - Sou o secretário da Copa, mas sou vice-prefeito. Uma das minhas preocupações é viabilizar a votação do Plano Diretor na Câmara Municipal. O projeto que apresentamos certamente não é o melhor dos mundos. Mas ele significa um grande avanço, na diminuição das alturas, ampliação dos afastamentos, criação de área livre vegetada, estamos consolidando as áreas de interesse cultural...

JC - Há vereadores que não cansam de repetir: "não tem uma linha sobre a orla no Plano Diretor". Mas o capítulo das áreas de interesse cultural não inclui a orla?
Fortunati - Sim. Os vereadores que falam isso não leram a parte das áreas especiais de interesse cultural. Isto está consagrado desde o decreto do prefeito João Verle (PT), que estamos consolidando agora com uma lei complementar. É uma informação leviana de quem não leu a proposta de revisão do Plano.

JC - Quando o relatório da Orla sairá do papel?
Fortunati - O relatório prevê um concurso de ideias sobre a utilização da orla. Ele dá as diretrizes para que arquitetos, engenheiros, urbanistas e estudantes dessas áreas façam projetos para que possamos estabelecer com a cidade uma relação diferenciada, mostrando o que é possível incorporar. Esse concurso não vai obrigar ninguém a construir nada, mas vai apontar parâmetro, porque o que nos falta hoje é exatamente isto, ideias que permitam que o porto-alegrense visualize a orla de uma forma diferenciada.

JC - Tem alguma data para esse concurso?
Fortunati - Minha intenção era ter realizado em 2008, mas com o ano eleitoral acabou não acontecendo. Conversei com o novo secretário da SPM, Marcio Bins Ely (PDT), para que possamos no início deste ano buscar parceiros que financiem a elaboração do concurso público.
 
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Também questões da agricultura, da exportação, do Código Florestal e as conquistas da Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 foram avaliadas pelo presidente. "Conseguimos muitos avanços, destravamos o país", garantiu. Nesta visita ao RS, Lula irá a Santa Cruz do Sul e Livramento, onde, amanhã, terá encontro com o presidente uruguaio, José Mujica, na praça General Osório, na divisa do país com a cidade de Rivera. Hoje à noite, Lula deverá participar do comício da presidenciável Dilma Rousseff no Gigantinho.

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