Filha revela em rede social que Paulo Sant’Ana está com Alzheimer Paulo Sant'Ana - Reprodução Youtube

Filha revela em rede social que Paulo Sant’Ana está com Alzheimer

Em um post no seu perfil do Facebook, a filha do jornalista Paulo Sant’Ana,  Fernanda Sant’Ana Wainer revela que o cronista está com Alzheimer. Lamento muito, trabalhei uma década com ele e a todo momento Sant’Ana nos impressionava com sua memória fantástica. Declamava com perfeição poemas e cantava músicas que tinha aprendido na infância. Esbanjava talento nas “tiradas rápidas” e estava sempre pronto para polemizar. Esta também é a lembrança de Paulo Germano, jornalista e cronista do jornal Zero hora, em uma coluna que é citada pela filha no texto onde comunicou a doença do pai.

11204933_690542254412837_3279999749003288423_nFernanda escreve:Este recadinho vai para todas as pessoas carinhosas que perguntam sobre a saúde do meu pai. Ele foi diagnosticado, há pouco, com Alzheimer. Hoje, fui visitá-lo e qual não foi a minha surpresa qdo a enfermeira contou que qdo leu a coluna que o Paulo Germano fez sobre ele, para ele, meu pai foi dizendo o poema junto das enfermeiras!! Fui, então, surpresa e feliz, questioná-lo: Como tu lembras desse poema, pai? ” É claro, minha filha, é o poema mais bonito de todos os que eu sei”!
Realmente esta caixinha chamada cérebro, é muito mais complexa do que supõe a nossa vã filosofia!! ” .

É farto o número de crônicas e textos onde Sant’Ana tratou das diversas doenças que contraiu durante a vida e das várias cirurgias que realizou. Em poucas ele cita o Alzheimer, é o caso de uma escrita na edição de Zero Hora, em 17/09/2013 que aqui transcrevo:

 

“Recordações e esquecimentos”; Paulo Sant’Ana

Quando me acordo pela manhã é que noto a enrascada em que estou metido: a vida.

Em outras palavras, quero dizer que a única forma pela qual podemos fugir da realidade é o sono. Assim mesmo, essa fuga é temporária.

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Imagine o desespero que sofre quem tem insônia. Retorce-se de vontade de fugir temporariamente da vida pelo sono e não consegue se livrar por horas desse calvário!

Gastam muito dinheiro comprando soníferos. Alguns funcionam, outros não. Enquanto isso, a vigília se desenvolve sinistra, mantendo as pálpebras abertas e mergulhando a pessoa em atroz estado pré-agônico.

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Às vezes, chego a pensar, absurdamente, que, para essas pessoas que pretendem desesperadamente se refugiar no sono para fugir à realidade, o mal de Alzheimer seja uma solução.

Imagino que quem é acometido de Alzheimer se beneficie do esquecimento da realidade adversa.

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O mecanismo cerebral, felizmente, é dotado do esquecimento. O nosso conhecimento em geral é armazenado no cérebro, de onde é retirado circunstancialmente, quando necessitamos dele.

É desesperante que retiremos de nossos arquivos as lembranças de que não necessitamos. Se tal processo se verificar com insistência, não resistimos a esse suplício e ingressamos na loucura.

Por isso é que é instigante o pensamento de Chesterton de que “louco é aquele de quem roubaram tudo, menos a razão”.

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O homem, portanto, vive se debatendo num dilema: entre lembrar e esquecer. A memória é o mediador principal entre as lembranças e os esquecimentos. Quem souber lidar com a dança dessas duas variantes está exercendo um estado mental que se denomina lucidez.

E quem lembrar quando não quiser lembrar ou esquecer quando quiser lembrar, esse ser acaba de ingressar nada menos do que na loucura.

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A consciência exerce um papel preponderante entre as lembranças e os esquecimentos.

A consciência culpada nada mais é que uma lembrança insistente que, como num acicate, nos persegue quando só nos livraríamos dela caso a esquecêssemos.

Por isto também é que muitas pessoas recorrem ao álcool e às outras drogas: para tentar afugentar certas lembranças desagradáveis e atrair o esquecimento.

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O fracasso mental é muito não conseguir lembrar ou não conseguir esquecer. Um homem pode desesperar-se tanto quando não consegue lembrar mais os instantes felizes que teve com uma mulher amada quanto quando não conseguir esquecer-se dos momentos infelizes que passou com uma mulher mal amada.

E no centro todo desse mecanismo tangencial da mente está muito claro que a saúde mental reside especialmente em conseguir ter as lembranças do que se necessita lembrar como conseguir esquecer as lembranças indesejadas.

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