Pedal das Chaminés Foto: Emmanuel Denaui

David Coimbra lança “Hoje eu venci o câncer”. Livro com relatos inéditos sobre como o jornalista enfrentou a doença chega às livrarias na segunda-feira

Escrever que David Coimbra é um dos grandes jornalistas brasileiros da atualidade, um cronista de mão cheia e um amigo dos amigos, é o óbvio. Mas e daí? Porque é óbvio não vou escrever? Ok! David  não é uma unanimidade. Todavia, não é porque há burros no planeta. Mas, normalmente até eles, o meu amigo trata com gentileza. Olha, ser David em época de intolerância nas redes sociais, requer uma dose extra de generosidade e paciência. Ainda bem que ele as têm em quantidade ilimitada. Convivi muito com o David nas quadras de futebol de salão (Futsal é coisa moderna) entre bolachas de chope, sanduíches abertos, filés,  churrascos, vários “xises” (ele já descreveu em sua coluna a experiência de traçar um cheeseburger ao meu lado) e tenho algumas longas horas em filas esperando o autógrafo do menino do IAPI. Houve uma época que ele lançou vários livros em um pequeno espaço de tempo. Sou tão fã, que tenho dedicatórias em edições diferentes de Jô na Estrada e A Mulher do Centroavante. Alguém me perguntou: Tu vai na sessão de autógrafos do David? E eu sem saber que livro… fui. Só me flagrei que já tinha devorado o livro, quando li o nome da obra na página autografada pelo David. Cometi o erro uma segunda vez, até aprender a olhar o cartaz do lançamento. Afinal de contas, “Herrar é umano, persistir… “.

Quando soube da notícia do câncer no rim, fiquei abalado como todos que conviviam com o craque das letras, mesas e quadras. Foi a força e a determinação do David em enfrentar a doença, que melhorou o ânimo dos que estavam em torno dele. É claro que o filho da D.Diva e pai do Bernardo, se abalou com a notícia(quem não se abalaria), mas encarou o desafio de ser cobaia. Apoiado pela Marcinha, amigos mais próximos e por Duda Melzer – poucos sabem, mas ele acompanhou tudo de perto – David foi a luta e venceu o monstro. Mas, para um cara que leu os “Tesouros da Juventude”e escreve crônicas e reportagens como poucos, a vitória física não basta. Ele tinha que passar e repassar psicologicamente cada momento que viveu. Por isso, chega às livrarias na próxima semana: HOJE EU VENCI O CÂNCER.

29852916_2074250996127226_1472937266_nDavid já tratou do assunto em colunas, no jornal Zero Hora. Em 18 de maio de 2013, iniciou a série: A má notícia. Na abertura do capítulo 1:  “Quando descobri que estava com câncer, desmaiei. Que decepção comigo mesmo, eu que me achava tão forte. Hoje as coisas estão diferentes, e logo você vai entender por quê. Naquele dia, 8 de março, uma sexta-feira azul e amarela de fim de verão, minha preocupação era uma misteriosa dor no peito que vinha sentindo havia algumas semanas. Os médicos fizeram todo tipo de investigação e não descobriam do que se tratava. Estava tudo bem com o coração, tudo bem com os pulmões, mas a dor aumentava a cada dia, até se tornar quase insuportável (…) Um rim tinha o dobro do tamanho do outro, e o rim grande tinha uma área escura no centro, uma mancha que lhe tomava quase todo o território. Arregalei os olhos e constatei, em voz baixa: – É câncer… Os médicos e técnicos em volta tentaram ser otimistas. – É preciso fazer mais testes – disse um deles. Mas eu sabia que era câncer. Não precisava ser médico para perceber o óbvio.”  Em outubro de 2016, no artigo: “Eu virei cobaia de um remédio contra o câncer”, ele tratou do assunto nas páginas da revista Superinteressante, que dedicou toda uma edição a doença.

“… Tinha câncer de rim com metástase e sofri um bocado, de lá para cá. Meu rim esquerdo foi extraído, e agora descobri que isso é mais uma das coisas que tenho em comum com Pelé, além da minha categoria como ponta-direita recuado. Tomei algumasdas drogas existentes no Brasil contra câncer de rim. A maioria funcionou por três ou quatro meses, mas logo as espertas células mutantes do câncer aprenderam como voltar a se reproduzir. A folhas tantas, um médico me informou:

– Se tudo der certo, você tem, no máximo, mais cinco anos.

Se tudo der certo…

Foi nesse momento que descobri o maravilhoso mundo das cobaias. Vou contar como é: agora mesmo, há cientistas que estão estudando uma única e minúscula molécula, a mesma molécula que observam já há 20 ou 30 anos de suas vidas. Esse estudo paciencioso e criterioso, somado a outros tantos igualmente pacienciosos e criteriosos, resulta na confecção de drogas com poder suficiente para derrotar vários tipos de câncer. Em breve, e espero que seja realmente em breve, eles descobrirão a cura de todos os cânceres, que o câncer não é um só, é legião, porque são muitos.

Ocorre que, em determinada etapa desses estudos, o remédio precisa ser testado em seres humanos. É aí que entramos nós, as cobaias felizes. Quando você é selecionado para participar de um desses estudos, recebe otratamento mais avançado de que a ciência dispõe. Uma dona de casa que mora em Bangu, na Zona Norte do Rio, por exemplo, recebe, gratuitamente,o mesmo tratamento pelo qual pagarão xeiques sauditas, industriais alemães ou executivos japoneses.O problema é que a dona de casa de Bangu dificilmente terá acesso a esses experimentos, por causa da burocracia do Estado brasileiro.”

Agora, depois de escrever crônicas e artigos sobre o que viveu, David concluiu seu livro um relato longo sobre tudo o que viveu nos últimos anos. Eu conversei com ele rapidamente sobre o livro, via whatsapp:

Felipe Vieira: Quando tu decidiu escrever o livro ?

David Coimbra: Tinha pensado em escrever esse livro pro Bernardo. Depois, vi que seria um livro que poderia ajudar muita gente. Gente que, de alguma forma, convive com males assim e até quem não convive, mas que pode compreender algo a respeito e usar para si mesmo. Não posso dizer que estou curado, porque esse tipo de doença sempre pode voltar. Por isso coloquei o “hoje” no título. Hoje estou curado, não sei como será amanhã, mas o que me importa é hoje.

Felipe Vieira: Como foi receber a notícia da doença?

David Coimbra: Foi terrível. Um dos piores momentos da minha vida. Lembro de cada detalhe, descrevi tudo no livro e, ao descrever, cheguei a sentir de novo aquela péssima sensação.

Felipe Vieira: Tu pensou que ia morrer?

David Coimbra: Claro. E foi por isso que decidi escrever esse livro. Decidi escrever algo pra deixar pro meu filho. Mas, depois, como continuei vivo, mudei um pouco o projeto.

Felipe Vieira: Como foi a decisão de se atirar de cabeça em um tratamento experimental?

David Coimbra: Eu não tinha alternativa. Tinha que tentar.

Felipe Vieira: Tu te sentiu uma cobaia?

David Coimbra: Eu era uma cobaia. Sou ainda. Com muito orgulho.

Felipe Vieira: O livro está restrito aos anos da doença ou tu coloca outras memórias?

David Coimbra: Escrevo sobre os anos da doença, mas recuo várias vezes, conto muitas partes da minha vida, falo de pessoas e situo os personagens. Muito do que vivi está ali.

Felipe Vieira: Como pai, adorei ler o teu livro: Meu Guri. Como foi dar a notícia para o Bernardo?

David Coimbra: Eu não dei a notícia pro Bernardo, porque ele era muito pequeno, mas houve um momento em que tive de expressar a ele claramente o que estava acontecendo. Contei isso no livro.

 

No release do livro está escrito e eu concordo plenamente. Enfrentar uma situação-limite e sair inteiro é para poucos. Após o auge da dor – seja ela física ou espiritual –, vem o depois, o dia a dia. Em Hoje eu venci o câncer, David Coimbra nos mostra como ele lidou com seus próprios medos ao enfrentar uma doença que colocou sua vida de cabeça para baixo. Logo em seguida a um diag­nóstico assustador por sua gravidade, o autor se mudou para os Estados Unidos com sua família para tentar um tratamento experimental que foi sua salvação.

Em textos por vezes crus de tão hones­tos sobre sua saga para recobrar a saúde, o autor nos pega pela mão numa viagem que intercala presente e passado. Para entender de onde tira tanta determinação, retornamos com ele à sua infância, precisa­mente ao momento em que sua mãe, com três filhos pequenos, foi abandonada pelo marido, e seguimos por sua vida adulta, por seu início no jornalismo, pelas grandes coberturas e principalmente pelos laços de amizade que foi construindo, amigos esses fundamentais para enfrentar a doença.

Ao intercalar sua narrativa com as crônicas que publicou nos momentos mais difíceis da sua vida – como o texto supreendentemente leve que escreveu no dia que teve o aterrador diagnóstico ou o angustiante relato de quando se viu inter­nado para mais uma cirurgia nos Estados Unidos, à qual se seguiram delírios em função dos opiáceos receitados –, o autor nos mostra como seguir em frente sempre, mesmo nos momentos mais assustadores. Porque para David Coimbra só existe o presente, o tempo gerúndio, o que está acontecendo. O futuro é inconfiável. E o passado se constrói a cada dia que passa.

 

Quer saber mais? Reserve um tempo na próxima semana, passe em uma livraria ou entre  no site da L&PM e baixe o e-book. Lá você vai encontrar um trecho da obra.

 

Título:

HOJE EU VENCI O CÂNCER

Preço:

34,90

Gênero:

Biografias
Saúde Memórias Crônica

Formato:

14×21

Páginas:

208

Edição:

abril de 2018
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