Domingos Martins “O dono da voz” deixa a Rádio Gaúcha

Domingos Martins “O dono da voz” deixa a Rádio Gaúcha

 

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Domingos caminha pelos corredores do prédio da RBS, na esquina da Avenida Ipiranga com a Érico Veríssimo, como se fosse seu habitat. Parece não ter a consciência de que, diariamente, milhares de pessoas ouvem sua voz e dicção perfeitas ao sintonizarem a frequência 600 AM (ou 93,7 FM) nas ondas radiofônicas. Assim inicia a crônica: O dono da voz do rádio, que faz parte da série de documentos gerados a partir da entrevista de Domingos Martins aos alunos da Famecos. E eu concordo com quem escreveu, Domingos Martins, é do time do seu Holmes Aquino e de alguns poucos outros que mesmo tendo passagens por outras emissoras viraram uma referência da Gaúcha.

Quem me conhece, sabe que existem notícias para as quais não estou preparado. Esta é uma delas, fiquei surpreso ao ler o post de Claudio Moretto, dando conta da saída de Domingos Martins, da Rádio Gaúcha. Mesmo que eles sejam “fatos normais” da vida e que segundo alguns, não deveria comentar por envolverem outras empresas. Mas, não há como deixar de registrar, afinal a voz dele é a voz da emissora desde a década de 1980. Tive o prazer de primeiro ouvir e trabalhar com o Domingos. Fui  seu substituto no Gaúcha Fim de Semana e dele recebi conselhos, orientações ou se quiserem “puxões de orelha” sobre como falar no microfone. Sempre de forma tranquila e civilizada. Por sinal o único momento que o via irritado era quando entregava o programa após o “bip”da hora cheia. Como ele tinha razão, o negócio era ficar ligado para que o atraso não se repetisse e ele não voltasse a reclamar com razão.

Tenho certeza que em breve, voltarei a ouvi-lo em outro prefixo. Mesmo que o mercado não esteja grande coisa, não se desperdiça talento e “know-how” como os de Domingos.  Incrivelmente muitas emissoras não tem esse profissional essencial em seus quadros. Alguém focado na “identidade sonora”, que faz com que sem olharmos para o dial saibamos que emissora estamos ouvindo mesmo nos blocos comerciais. O professor em doutor em Comunicação, Luiz Artur Ferraretto, registrou em sua página no Facebook: “Prefiro não discutir decisões administrativas. A vida me ensinou a fazê-lo apenas raramente. No entanto, registro que vou sentir falta da voz de Domingos Martins na programação da Gaúcha. Saiu com ele parte da história da emissora. Sempre gostei muito do Domingos, profissional com a rara capacidade de auxiliar o pessoal em início de carreira, repassando a sua experiência no uso da voz. Foi o que fez com dezenas de jovens jornalistas e radialistas. Está saindo do Grupo RBS com a certeza de uma longa tarefa muito bem realizada.”

Em entrevista ao projeto Vozes do Rádio, Domingos falou sobre a sua trajetória e paixão pelo veículo. Ao longo do tempo, ele prestou dois depoimentos, o primeiro em abril de 2004, que foi atualizado em maio de 2016. O texto abaixo é de Laura Schneider. Confira entrevista completa de Domingos e a íntegra do trabalho no link.

Domingos Martins Sobrinho nasceu no dia 20 de março de 1952 em Santa Maria. Domingos diz ter nascido com a profissão no sangue.

Em 1970 “meteu os peitos” e foi até a Rádio Guarathan, de Santa Maria, se candidatar a locutor. Fez um teste e já começou a trabalhar. Em 1971, teve a carteira de trabalho assinada pela primeira vez quando foi para a Rádio Santamariense. Mas o seu sonho era trabalhar na rádio mais ouvida da cidade: a Rádio Medianeira. E isso aconteceu em 1972, quando tornou-se locutor e apresentador de programas da Medianeira. Domingos fez o maior sucesso com o programa “Edisom Especial”. Ficou famoso que nem artista de televisão em toda a região. Era convidado para bailes de debutantes, era o galã da época.

O programa durou até 1974, quando veio para Porto Alegre. Fez um teste na Rádio Guaíba, que era a melhor na época, e passou. Começou onde todos, na época, terminavam. Segundo Domingos, na Guaíba, havia profissionais mais experientes do que ele. A locução naquela época era impostada, era bonito impostar a voz. Domingos achou uma maravilha ter conhecido Milton Jung, com quem mantém uma grande amizade.

Como era muito jovem e inexperiente, não durou muito tempo na Guaíba. Em 1975 foi trabalhar na rede Riograndense de Emissoras, empresa de Otávio Gadret, composta pela Rádio Caiçara, Eldorado, Pampa e Rádio Universal. Mas não permaneceu muito tempo. Trabalhou, lá, apenas um ano. Em 1976 foi trabalhar na famosa Rádio Continental, onde produziu e apresentou programas até 1978.

Em 1978, foi convidado a fundar a Rádio Fandango, de Cachoeira do Sul, onde foi responsável pelo projeto de cobertura das eleições. Foi um sucesso de audiência. Ficou em Cachoeira até 1979, quando voltou para Santa Maria. Nesse período fez “bicos” para sustentar a família. Em 1979, voltou para Porto Alegre, onde trabalhou novamente na Rádio Continental até o final de 1980. Em agosto de 1980 começou a trabalhar na TV Educativa. Era o locutor de chamadas da TVE.

Em dezembro de 1980, foi convidado para treinar em uma rádio que iria surgir em janeiro de 1981. Lá, seria locutor executivo. Era a Rádio Atlântida, na época Gaúcha FM. Foi apelidado de “Frei Domingos”, porque sempre teve uma comunicação de muito otimismo, muita paz e fé. Até 1983, trabalhou somente na Atlântida. Nessa época foi convidado a fazer um programa na Rádio Gaúcha, Tudo sob Controle, sem deixar a Atlântida e a TVE.

Em 1983 passou a ser a voz da Rádio Gaúcha, da TVE, e das chamadas do jornal Zero Hora na RBS TV.

Em 1986 saiu da Rádio Atlântida para assumir a coordenação de programação e a chefia dos locutores da Gaúcha. Saiu da TVE em fevereiro de 2004.

Desde abril de 2015, Domingos deixou de ser coordenador de programação, chefe dos locutores e o responsável pela sonoplastia da Rádio Gaúcha. Atualmente, o locutor é a “voz da Rádio Gaúcha”, o que confere boa parte da identidade do veículo.

O segredo para o sucesso na profissão, segundo ele, é ter muita dedicação, carinho e responsabilidade por tudo que se faz. Domingos escuta de tudo, rádios AM e FM, desde a primeira até a última do dial, pois acha esse exercício muito importante para saber o que os outros estão fazendo.

 

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