Morre o jornalista Jayme Copstein

Morre o jornalista Jayme Copstein

Jayme Copstein, faleceu nesta tarde, na Santa Casa de Misericórdia em Porto Alegre. Natural de Rio Grande, RS,  se formou em odontologia, exerceu a profissão a pedido do pai. Segundo me contava sempre foi  jornalista de coração. Nos últimos dias visitei Jayme na Santa Casa, rodeado de livros, anotações e reclamando da baixa velocidade de conexão da internet no apartamento 313, que ocupava no Pavilhão Pereira Filho, se negava a parar de trabalhar. Em uma caderneta tinha notas para vários artigos e algumas frases para um perfil que pretendia escrever sobre o médico José Jesus de Camargo que o tratava. “Conheci” Jayme aos 19 anos, quando comecei a ouvi-lo no Gaúcha na Madrugada. Me apaixonei pelo tom coloquial, pelo comentário bem elaborado que fazia o ouvinte refletir mesmo que estivesse sonolento e pelo respeito ao que hoje é comum, mas naquela época não era… a interatividade. Quando cheguei na Gaúcha em 1989, muitas vezes varei madrugadas quieto dentro do estúdio acompanhando a realização do programa e algumas vezes tive a honra de substituir Jayme Copstein. Graças ao conselhos do Antônio Carlos Niederauer não mexi na estrutura e mantive o programa como meu amigo o fazia. E por isso recebi elogios inesquecíveis do Jayme, Niederauer, Ranzólin e outros. Era simples, mas não era facil subsituir o gênio criativo, excelente redator, produtor de mão cheia, leitor voraz e jornalista perfeccionista. Na simplicidade está a genialidade. O programa era feito, o horário era mantido, mas sem a genialidade do mestre.  Jayme trabalhou nos principais jornais e emissoras de rádio do Rio Grande do Sul. Conquistou vários prêmios de jornalismo, entre eles a Medalha de Prata no Festival Internacional de Rádio de Nova York e vai se juntar ao Streck, Flávio(de quem era grande amigo e tinham entre eles uma admiração reciproca), Julio Rosemberg e tantos outros. Vai fazer falta amigo. Muito obrigado por tudo. Bjos no coração imenso!!!!

Em seu site Uma História do Rádio no Rio Grande do Sul, o professor da Ufrgs, Luiz Arthur Ferrareto escreve sobre Jayme Copstein e a apresentação e produção do programa Gaúcha na Madrugada.

De 1985 a 2004, o rio-grandino Jayme Copstein, de fala mansa e envolvente, mudou as madrugadas radiofônicas do Sul do país, aliando um raciocínio rápido no bate-papo com os ouvintes, sem nunca adentrar o nebuloso terreno do sensacionalismo e mantendo sempre uma postura elegante ao microfone da Rádio Gaúcha. O projeto inicial levado a cabo por ele diferia bastante da proposta que o consagraria como apresentador.
Anos 1980 Foto 10 Brasil na Madrugada
Anúncio do programa Gaúcha na Madrugada (fevereiro de 1985) Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 2 fev. 1985. p. 25.

Ao assumir a gerência-executiva da emissora da Rede Brasil Sul, Flávio Alcaraz Gomes propõe que Copstein, então editor-chefe do Jornal do Comércio, recupere, da meia-noite às 3h, as principais entrevistas do dia levadas ao ar durante a programação, amarrando com comentários os vários trechos editados. Guindado à nova função, Jayme sugere que, ao contrário, abra-se espaço para que o ouvinte analise, por telefone, as entrevistas. Com esta perspectiva, o Gaúcha na Madrugada estreia em 4 de fevereiro de 1985, mas, naquela edição, rapidamente, esgotam-se os trechos gravados e Copstein, até por inexperiência ao microfone, leva a transmissão, precariamente, até o final. O relato dele ao Projeto Vozes do Rádio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul revela-se significativo a respeito de um padrão

que começa a ser identificado em relação à audiência:
– No outro dia, eu entrei na rádio, achando que não tinha nem mais programa. […] Aí, eu entrei no ar para fazer molecagem, porque eu achava que eles iam me mandar embora. Comecei a brincar com todo mundo. Aí, telefona um sujeito e me pergunta: “Como é que se conhece a fêmea do quero-quero?”. “Olha, só perguntando ao namorado dela, porque é o único interessado nisto.” Deu uma polêmica em torno da fêmea do quero-quero! Todo mundo dando palpite. Aí, eu acabei não fazendo mais entrevista com ninguém e os ouvintes falando, falando… Eu sei que esse foi o resultado: a partir daí sempre os ouvintes ligaram para opinar. Sobre coisas particulares de cada um ou sobre a vida do país. E foi aí que o programa tomou corpo.
De fato, nas edições iniciais do Gaúcha na Madrugada, Jayme Copstein identifica, a exemplo de espaços mais populares da programação radiofônica, a solidão dos grandes centros urbanos. No entanto, dentro do formato misto talk and news adotado pela emissora em meados da década de 1980, o programa não foge ao conteúdo jornalístico e ao tipo de público – basicamente adulto, com no mínimo ensino médio e pertencente às classes A e B –, embora, a rigor, aproxime-se muito do chamado all talk em vigor nos Estados Unidos. A todo momento, o apresentador e seus entrevistados interagem com os ouvintes, que expressam, em suas participações, dúvidas e opiniões e, por vezes, relatam acontecimentos cotidianos. Para regular o que é irradiado, Copstein inspira-se em A Hora do Pato, um antigo programa de calouros da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Aproveita, assim, um efeito sonoro reproduzindo o grasnar de um pato, que acaba se transformando em personagem do Gaúcha na Madrugada:
– O Pato é um elemento – digamos que o elemento de rádio tem que ser sonoro, bem humorado – para tirar as pessoas do ar quando elas se tornam inconvenientes. Ou porque dizem palavrão, ou porque fazem ofensa de natureza pessoal, ou então porque falam em futebol, e futebol é uma coisa que se esgota à meia-noite. A emissora às 20h entra a falar em futebol e não termina antes da meia-noite. Então eu sempre achei isso excessivo. […] E aí o Pato. E o Pato eu achei muito engraçado, porque ele não diz nada. O Pato é só aquele oiuioeuriuro. […] E o Pato começou a tirar as pessoas do ar. Até que um dia eu precisava meter o pau, mas descer a lenha no governo mesmo, era o governo Pedro Simon, e aí eu precisava, digamos, ter um outro eu que se responsabilizasse por aquilo. Aí o Pato disse isso, o Pato disse aquilo.
Em termos de jornalismo e prestação de serviços, o Gaúcha na Madrugada passa pelo que Copstein chama de “uma fase de esclarecimento público”. Antes mesmo da Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990, instituindo o Código de Defesa do Consumidor, o programa já aborda o tema, levando para o estúdio advogados que respondem, no ar, a perguntas dos ouvintes formuladas por telefone ou carta. Com as dúvidas em termos de legislação abrangendo diversas áreas, forma-se uma espécie de equipe de colaboradores. Conforme suas especialidades dentro do Direito – do consumidor, imobiliário, previdenciário, trabalhista… –, revezam-se ao microfone profissionais como César Dias Neto, José Henrique de Freitas Valle, Flor Edison da Silva Filho, Pedro Ruas e Raul Portanova. O Gaúcha na Madrugada atrai, deste modo, uma audiência particular em um horário pouco explorado até então pelas emissoras do estado:
– […] hoje [início do século 21] eu tenho […] médicos fazendo plantão nos hospitais, enfermeiros, auxiliares de enfermeiros, advogados fazendo petições, juízes lavrando sentenças, quer dizer, há todo um universo de pessoas que estão acordadas a essa hora e que, portanto, ouvem o programa. […] Eu acho que a faixa de ouvintes se concentra entre 30 e 50 anos.
O programa ganha abrangência nacional em 1995, transformando-se no Brasil na Madrugada, quando se forma a Rede Gaúcha Sat. Na mesma época, a sua qualidade é reconhecida no exterior. Jayme Copstein obtém a medalha de prata na categoria Melhor História de Interesse Humano no The New York Radio Festivals, com o trabalho Memórias de um Menino de Rua, narrando a trajetória do economista Carlos Nelson dos Reis, um ex-menor abandonado.
Depois de quase duas décadas trocando o dia pela noite, Jayme Copstein deixou em 2006 a apresentação do Brasil na Madrugada. Apesar da qualidade de seus substitutos, a voz calma, mesmo na indignação, deixou saudades nos insones.
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