Morre o jornalista Lucídio Castelo Branco. Testemunha de alguns dos momentos mais difíceis da história política brasileira Lucídio Castelo Branco. Foto: FENAJ

Morre o jornalista Lucídio Castelo Branco. Testemunha de alguns dos momentos mais difíceis da história política brasileira

Faleceu nesta quarta-feira, aos 91 anos de idade, o jornalista Lucídio Castelo Branco. Nascido em Teresina, Piauí, em 13 de novembro de 1926, Lucídio Castelo Branco morou no Rio de Janeiro de 1939 a 1949, quando veio para Porto Alegre. Gaúcho de coração e por opção, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (1965 a 1967) e também da Federação Nacional dos Jornalistas (1968 a 1971). Bacharel em Direito pela Ufrgs, Lucídio era jornalista da época em que não era necessário o diploma. Mas deixou para a categoria sua maior conquista: a regulamentação profissional através de negociação com o Ministério do Trabalho. Escreveu sua autobiografia, “Da memória de um repórter” lançado em 2002, no qual relata os principais episódios em 48 anos de trabalho. A obra ainda resgata uma parte da história política vivida pelo jornalista e conta suas experiências em coberturas políticas, sua grande paixão até a chegada da censura nos anos 60 e 70. Leia o perfil de Lucídio Castelo Branco publicado por Coletiva.net, em dezembro de 2007.

A festa dos 90 anos, em 2016, mereceu um relato da jornalista Rosane de Oliveira:

Envelhecer sem rancor

Meu amigo Lucídio Castelo Branco comemorou 90 anos. Com ele aprendi que a lucidez caminha de mãos dadas com o bom humor

Das festas para as quais fui convidada neste ano de 2016, o aniversário do amigo, colega e leitor Lucídio Castelo Branco é forte candidato ao topo do ranking de mais marcante. Ainda faltam dois casamentos de amigos queridos, um no dia 10, outro no dia 17, e o reencontro da minha turma de faculdade, no próximo fim de semana, para comemorar os 35 anos da nossa formatura, mas o aniversário do Lucídio, também conhecido por Castelinho, vai ficar como a festa que valeu por cem livros de autoajuda. Porque fazer 90 anos com saúde, lucidez e bom humor é uma bênção. Impossível não perguntar: qual é a receita?

Lucídio circulou de mesa em mesa. Como não eram muitas e a música não era dessas que ensurdecem os convidados, deu para conversar com o aniversariante, ouvir suas histórias e entender o segredo de envelhecer com dignidade:

– Quero viver enquanto não sentir dor. Quando eu morrer, vocês podem dizer: morreu uma pessoa feliz.

Eis a primeira lição: para viver bem, é preciso não guardar rancor. Lucídio, contam os amigos que convivem com ele há mais tempo do que eu, sempre foi uma pessoa bem-humorada. Passou 10 anos desses 90 cuidando da mulher, vítima de Alzheimer. Foram 67 anos de casamento, três filhos, seis netos e uma bisneta que ela não chegou a conhecer. Morreu faz quatro anos.

Acham que ele se queixa? Não. Com uma ternura incomum, lembra que, no fim, a mulher já não reconhecia ninguém, mas mudava a expressão quando ouvia a voz dele. Foi para casar-se com ela que o jovem apaixonado, nascido no Piauí, trocou o Rio de Janeiro pelo Rio Grande do Sul, aprovado em um concurso do Tribunal de Justiça Militar. Foi aqui que o rapaz enveredou pelos caminhos do jornalismo, seguindo os passos do irmãos, o lendário Carlos Castelo Branco, durante décadas o colunista político mais respeitado do Brasil. Lucídio trabalhou na Folha da Tarde, foi chefe da sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre, lutou incansavelmente pela valorização da profissão de jornalista e hoje é um atento observador do que acontece no país. Está assustado, mas não se deixa abater. Caçula de uma família de seis filhos, ainda tem três irmãos vivos. A mais velha tem 101 anos e segue lúcida. O segredo? Lucídio ri:

– A fé e os filhos. Minha irmã teve 15 filhos.

Quando o primeiro filho adoeceu, a irmã, muito religiosa, fez uma promessa: se salvasse o bebê, teria tantos filhos quantos deus quisesse. A criança morreu, mas ela cumpriu a promessa do mesmo jeito. Teve outros 14. Essas histórias de família, o Lucídio contou em plena festa de aniversário. Fiz um pedido: que me convide para os cem, daqui a 10 anos. (Com informações da Coletiva.net e Gaúcha/ZH)

Comunicação Destaque Obituário Poder Política Porto Alegre