Os ladrões da Lava Jato e os ladrões das favelas: duas realidades, dois destinos

Os ladrões da Lava Jato e os ladrões das favelas: duas realidades, dois destinos

As proporções gigantescas dos escândalos de corrupção envolvendo altos escalões das principais empresas do país só não são maiores do que a indignação diante da gritante diferença nos tratamentos para os ladrões das altas rodas e para os ladrões das favelas. Muitos dos que roubaram cifras bilionárias dos cofres públicos seguem usufruindo do luxo proporcionado pelo seu crime, e seus familiares continuam com alto padrão de vida, como se não houvesse consequências para os delitos. Ao contrário dos marginais da alta roda, o delinquente pobre – e seus familiares – vivem uma realidade bem diferente. Das revistas humilhantes nos presídios ao desamparo absoluto, o sofrimento para as classes menos favorecidas soa como uma segunda condenação.

Uma moradora da Rocinha que, por segurança, preferiu não se identificar, deu seu depoimento para o JB, relatando em detalhes sua rotina para visitar o marido, preso por assalto:

“Ia vistá-lo de 15 em 15 dias e, por isso, perdi meu emprego porque tinha que me ausentar no sábado do trabalho. Passava o sábado fazendo comida para levar. Saía daqui no sábado, às 19 horas. Esperava o horário do ônibus na rodoviária e chegava lá por volta de 2 horas da manhã. Ficava no meio de um monte de “cracudo” na beira da rua. Eu era a primeira a chegar e acabava ficando para trás no final, pois tinha um monte de mulheres brigonas. Na hora de entrar, era uma confusão. Eles abrem a comida, remexem a comida toda. Eu estava com uma gravidez de alto risco e tinha que sentar em um banquinho que passa radiação. Mesmo com laudo médico, eles não queriam saber. Eles te humilham da pior maneira. Além de tirar toda a roupa na frente de todos, ainda mandam abaixar de perna aberta de frente, de lado e de costas, sacudir cabelo, abrir a boca. É uma bolsa por pessoa, a comida é limitada – tem que caber dentro deste saco de mercado a comida, a água, o refrigerante e as coisas de higiene para ele. Quando conseguia entrar, já estava quase na hora de vir embora. A visita particular tinha que ser paga. O banheiro é grudado no chão. Pra ir ao banheiro tinha que fica de ‘coque’ (cócoras)”, conta.

Mansão de Pedro Barusco, na Joatinga
Mansão de Pedro Barusco, na Joatinga

“Graças a Deus tinha os familiares e amigos que me ajudavam a pagar meu aluguel e a pagar minha passagem. É ruim pra quem está lá, mas pra gente, familiar, é horrível. Muita humilhação”, prossegue, disparando em seguida: “Acho uma covardia tremenda. Esses políticos safados que tiram do pobre para encher o bolso deles e não sofrem nada.”

Esta rotina de humilhação e dificuldade fica ainda mais chocante quando confrontada com a realidade de um dos personagens dos recentes escândalos de corrupção, o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco. Ladrão assumido, que recebia propina desde 1997, foi flagrado em julho fumando charuto e bebendo whisky nas praias de Angra dos Reis. Barusco é um dos exemplos desta vergonhosa impunidade que só funciona para o lado mais rico do Brasil. Os Queiroz Galvão e os Camargo Correa – empreiteiras também envolvidas em denúncias de corrupção – continuam enviando seus filhos a Londres para viver uma vida alheia à realidade de grande parte da população brasileira.

E o que não dizer do caso do banqueiro Ângelo Calmon de Sá, dono do Banco Econômico? Apesar da intervenção do Banco Central que completou 20 anos, as ações judiciais se arrastam e o crime vai prescrever. Em valores atualizados, o rombo chega a R$ 16 bilhões.

Os patrimônios daqueles que saquearam o país seguem intocados, o padrão de vida de seus familiares segue inabalável, enquanto o Brasil afunda em crise e agonia. Contas bancárias com altíssimos valores, viagens para o exterior, festas em palácios e jantares em restaurantes luxuosos continuam sendo a rotina dos ladrões de vida fácil e riqueza ilícita.

Muitas perguntas ficam no ar: a Receita Federal tem conhecimento da origem desse dinheiro usado pelos familiares dos corruptos? Ou os ladrões continuam em constante flagrante delito, operando ilegalmente no exterior para fazer mais dinheiro?

“Nós, ex-presidiários, e os ainda presos, conhecemos a prisão “lava jato” e a “lava lento”. A “lava jato” representa o tratamento que todos os presos deveriam ter, com todos seus direitos respeitados. É o céu, mas o que nos oferecem é o inferno. Infelizmente, os presos pobres não têm esse tratamento que a Polícia Federal oferece. Eu mesmo fui tirado de dentro de casa, algemado na frente da minha família. Fui exposto sem ter nenhuma investigação que levasse à verdade. Tudo por um vídeo montado que não era uma prova”, conta William de Oliveira, egresso do sistema carcerário e conselheiro estadual de Direitos Humanos – coordenador da Comissão de Privação de Liberdade. Ele destacou que só a cidade do Rio de Janeiro tem 45 mil presos, sendo que 25 mil são custodiados, ou seja, presos sem nenhuma sentença.

Diante da vergonhosa discrepância na realidade dos bandidos ricos e dos bandidos pobres, cabe ainda uma última pergunta: um homem que rouba um celular pode receber uma pena de reclusão de quatro a dez anos. Não seria justo, então, que a pena para os criminosos da Lava Jato se multiplicasse por 200 milhões, ou seja, o número dos brasileiros lesados pelo roubo aos cofres públicos?

Com Davison Coutinho, Eduardo Miranda

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