Para sempre Rui; por Rejane Martins* Rui Spohr Foto: Mateus Bruxel

Para sempre Rui; por Rejane Martins*

É praticamente impossível encontrar em Porto Alegre alguém verdadeiramente interessado em moda que desconheça a trajetória de seu maior estilista. Nascido em Novo Hamburgo em 1929, Rui nem sempre foi Rui. Batizado Flávio Henneman Spohr e destinado a ser padre ou militar pela parteira que o trouxe ao mundo, mudou de nome para assinar uma coluna em jornal e suas primeiras criações. Filho de uma tradicional família de origem alemã, desde muito cedo decidiu que a moda era o seu universo. Fez um estágio quase que obrigatório na fábrica de calçados do pai e viu que não poderia dedicar-se a uma atividade que envolvesse processos repetitivos, sem criação, sem arte. Nos momentos vagos na fábrica, desenhou seus primeiros vestidos. Começava a surgir o Rui e a desaparecer o Flávio.

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Rui Spohr Foto: Jean Pierre Kruse

Aos 22 anos decidiu que ia fazer moda e para fazer bem feito teria de beber na fonte: Paris. Foi o primeiro brasileiro a se profissionalizar em moda na França. A família protestou, mas logo viu que o guri estava decidido e não tinha mais jeito. Só restava apoiar. Na Cidade Luz, o jovem Rui se transformou em homem da moda. Vivenciou as maravilhas do maior polo cultural do mundo naqueles tempos, testemunhou o surgimento de nomes como Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld, que davam os primeiros passos, aprendeu a beber vinho tinto e champanhe, tornou-se fluente em francês, conheceu boa parte da Europa e trabalhou com Jean Barthé, o maior chapeleiro da França. Nem tudo foi festa em Paris. Saudades da família, agruras de ser estrangeiro sem apoio de seu país para concluir os estudos, fome durante uma longa greve dos correios que o impediu de receber o dinheiro enviado pela família para o seu sustento. Ao final do curso na Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, decidiu que era hora de voltar para casa.

Ao chegar de Paris, instalou-se no centro da capital gaúcha para ser chapeleiro. Foi nesta época que ele tomou a segunda grande decisão de sua vida – a primeira, segundo ele, foi estudar em Paris. A segunda: casar! Chegando ao ateliê, depois de um intervalo para almoço, encontra uma moça loira, de olhos claros e um vestido rodado, sentada no sofá, à sua espera. Ela queria trabalho. Ele precisava de uma secretária para receber as clientes, marcar horários e cuidar da burocracia do ateliê. Havia outra necessidade não descoberta: amor. Casaram-se em cerca de três anos. Do início de 1960 até hoje, foram inseparáveis.

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Dóris e Rui Spohr – Foto Juliano Antunes

Ao lado de sua querida Doris, esposa, companheira e sócia, Rui vivenciou os tempos áureos da alta-costura e foi pioneiro com o objetivo de seguir um sonho e se aprofundar no mundo da moda. Nome ligado à história e à cultura do Estado e da nossa cidade, o estilista notabilizou-se pela ousadia de suas criações e ineditismo na apresentação de desfiles em Porto Alegre. Rui transformou meninas da sociedade em manequins. Ele e Doris estavam atentos à aparição de jovens de porte, de beleza diferenciada e as convidavam para serem modelos. Assim surgiram Lucia Cury e Lilian Lemmertz, entre outros nomes que brilharam na passarela Rui. A escolha de locais inusitados para mostrar suas coleções também marcou sua carreira. Um desfile em plena catedral metropolitana entrou para a história da moda e da capital. Clubes e o próprio Palácio Piratini também foram palco desses momentos.

Uma roupa atemporal, clássica, elegante, que respeita os diferentes corpos e tipos de mulher, valorizando o belo e disfarçando o que não está tão bem. Um vestido dos anos 70, 80, não importa a data, hoje pode ser usado tranquilamente, segue sendo up to date. Um estilo único, que faz valer o slogan da marca: “A sofisticada originalidade do simples”. O nome e a marca, a pessoa e a empresa se fundem em um só. RUI perpetuou sua grife transformando-a em sinônimo de elegância.

Em festas, eventos, cerimônias, quando alguém se destaca, os elogios transbordam. Surge a pergunta: De onde é essa roupa? A resposta é uma só: Rui, quem mais? De tanto se repetir a cena, consagrou-se o jargão, hoje chamado de hashtag: Rui é Rui. Hoje, nosso sentimento, deixa de lado a dor para dar lugar à paz. Nosso Rui é imortal. Estará sempre conosco.

Para sempre Rui.

 

RejaneMartins*Rejane Martins, Jornalista e Assessora de Imprensa de Rui Spohr

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