Telegrama secreto dos EUA relata corrupção na ditadura militar. Documento de 1984 diz que escândalos abalaram a confiança da população no governo; por Leandro Loyola/O Globo

Telegrama secreto dos EUA relata corrupção na ditadura militar. Documento de 1984 diz que escândalos abalaram a confiança da população no governo; por Leandro Loyola/O Globo

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Como era de sua rotina, no dia 1º de março de 1984, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil despachou para o Departamento de Estado, em Washington, o telegrama com carimbo “confidencial” número 1413z. Era um dos grandes. Impresso, preenche quatro páginas — três delas com o texto digitado em duas colunas com letras bem pequenas. O conteúdo era extenso porque o tema era vasto: a corrupção no país.

O assunto dominava o noticiário à época e, segundo os informantes americanos, não apenas enfraquecia o governo de João Figueiredo (1979-85), como indicava o apodrecimento e o fim próximo da ditadura militar, no poder desde 1964.

O telegrama, obtido pelo GLOBO, faz parte de um lote de 694 documentos enviados pelo governo do então presidente Barack Obama ao de Dilma Rousseff. Foram três remessas, entre 2014 e 2015, para a Comissão da Verdade, que examinou abusos de direitos humanos durante a ditadura. Devido ao prazo curto para o relatório final da Comissão, vários deles deixaram de ser analisados.

Numa introdução didática para burocratas de Washington, o telegrama explica o que é o “jeitinho”, um fenômeno social brasileiro, seu papel na prática cotidiana e como, devido a isso, a corrupção seria parte indissociável da política e da economia no país. A partir daí, o texto traça um quadro da decadência do governo Figueiredo, ao mencionar uma série de acusações de corrupção. “No nível nacional existem muitos escândalos que lançam nuvens sobre o governo Figueiredo”, diz o informe.

Certamente o homem mais poderoso na economia durante o regime militar, o então ministro do Planejamento, o economista Delfim Netto, é citado como um exemplo de alvo de acusações do alto escalão de Brasília. São dois os casos. Num deles, o das polonetas, havia suspeitas em torno de empréstimo de US$ 2 bilhões à Polônia a taxas de juros consideradas baixas. Em outro, um documento conhecido como “relatório Saraiva” — que nunca veio a público na íntegra — acusava Delfim de, quando embaixador em Paris, receber propina para intermediar negócios entre bancos estrangeiros e estatais brasileiras.

Um país onde “jeito is king”
Corrupção chegava a altos cargos, dizem EUA

Delfim nega qualquer relação ou irregularidade nos dois casos — como negou na ocasião:

— As polonetas o governo da Polônia pagou, em um momento de grande dificuldade para o Brasil, US$ 3 bilhões. O relatório Saraiva foi arquivado pelo SNI porque não havia nada de concreto — diz Delfim, que minimiza o papel dos informantes americanos. — Esses funcionários vinham para o Brasil e fingiam trabalhar enviando a Washington informações que já estavam em todos os jornais.

Direitos Humanos identifica Presídio Central como local de prática de tortura no regime militar

Direitos Humanos identifica Presídio Central como local de prática de tortura no regime militar

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O Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul (MJDH) identificou, na tarde de hoje, mais um local utilizado pela Ditadura Militar para a prática de crimes de prisão e tortura em Porto Alegre. Dando continuidade ao Projeto Marcas da Memória, a entidade instalou a sétima placa que menciona os centros militares na calçada em frente ao Presídio Central, o primeiro prédio estadual incluído na lista. Até o fim do ano, mais três pontos serão identificados pelo Movimento, incluindo um setor do Daer, que era conhecido como Ilha do Presídio, na zona Sul, e a Penitenciária Feminina Madre Pelletier.

No Central, cerca de 90 presos políticos ficaram detidos durante o regime militar. Além disso, também foi registrada a morte do taxista e militante do Grupo M3G, Ângelo Cardoso da Silva. Dado como suicida, Silva foi encontrado pendurado por um lençol amarrado ao pescoço, em uma altura de 1,30m e com os pés no chão.

O Movimento estima que mais de mil pessoas tenham sido alvo do regime militar no Rio Grande do Sul. Conforme o presidente da entidade, Jair Krischke, a iniciativa visa relembrar a prática ditatorial para que não se repitam os erros do passado. “É muito importante, especialmente, que a juventude do Brasil saiba o que aconteceu neste País durante o período da Ditadura. Nesses últimos tempos, a gente escuta gente jovem pedindo a volta da Ditadura. Eles ignoram o que foi a Ditadura e não sabem absolutamente nada sobre as atrocidades que foram cometidas durante esse período. Essas marcações têm o proposito de contar essa história”, disse.

O governador do Estado, José Ivo Sartori, também apoiou o projeto ao destacar que a demarcação desses locais resgata momentos dramáticos da história. “Essa iniciativa promove uma reflexão sobre o assunto”, avaliou.

Sobre o projeto Marcas da Memória

O projeto Marcas da Memória prevê a identificação dos locais que abrigaram tortura durante a Ditadura Militar (1964-1985). A intenção é tornar públicos todos os espaços que foram centros de detenção e tortura, bem como incentivar atividades culturais que propiciem o conhecimento e a reconstrução da memória dessa época. Uma placa com descrição histórica é colocada na calçada de prédios ligados a esse período da vida política brasileira.

Locais que já haviam recebido placas

– Praça Raul Pilla, local do antigo Quartel da Polícia do Exército.

– Calçada em frente ao Colégio Paulo da Gama, local que serviu como Presídio Militar Especial.

– Calçada em frente ao Palácio da Polícia, onde presos políticos foram torturados durante o regime militar e no segundo andar, houve tortura e homicídios nas salas onde funcionaram o Departamento de Ordem Política e Social (Dops/RS).

– Rua Santo Antônio, 600, onde funcionou o chamado Dopinho, primeiro centro clandestino de detenção do Cone Sul.

– Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase), onde foram detidos mais de 300 presos políticos durante o período da ditadura.

– Avenida Bento Gonçalves, em frente ao número 4.592, onde existiu um local da prática de tortura sob controle da Infantária do Exército. (Lucas Rivas/Rádio Guaíba)

Morre aos 96 anos o ex-governador do Pará e ex-ministro Jarbas Passarinho

Morre aos 96 anos o ex-governador do Pará e ex-ministro Jarbas Passarinho

Destaque Poder Política

O ex-governador do Pará, ex-ministro e ex-senador Jarbas Passarinho morreu na manhã de hoje (5) aos 96 anos. Ele faleceu em sua residência, em Brasília, em decorrência de problemas de saúde relacionados à idade já avançada. Por meio de nota, o governo do Pará informou que decretou luto oficial de três dias. O velório será feito na própria capital federal e o enterro está programado para começar às 16h, no Cemitério Campo da Esperança. Nascido no município de Xapuri, interior do Acre, Jarbas Passarinho, militar do Exército, iniciou sua trajetória política no Pará, estado que governou entre 1964 e 1966. No Senado, cumpriu três mandatos. Também atuou como ministro do Trabalho, da Educação e da Previdência Social no governo militar e como ministro da Justiça no governo de Fernando Collor.

Biografia

É filho de Inácio de Loiola Passarinho e Júlia Gonçalves Passarinho. Ingressou na carreira militar e foi alçado à Artilharia chegando a tenente-coronel quando da deposição de João Goulart e a

Salão Negro Do Senado Federal Data - 29/09/1988 Assunto - Assinatura da Constitutição Participantes - Sen Jarbas Passarinho. Foto: Celio Azevedo/Fotos Públicas
Jarbas Passarinho Foto: Celio Azevedo

subsequente instauração do Regime Militar de 1964, por meio do qual foi alçado à política. Foi casado com Ruth de Castro Gonçalves e pai de cinco filhos.

Em 15 de junho de 1964 foi empossado governador do Pará em lugar do deposto Aurélio do Carmo cuja presença à frente do executivo foi dispensada pelo novo regime. Jarbas Passarinho filiou-se à ARENA e após deixar o governo foi eleito senador em 1966, mas em seguida foi nomeado ministro do Trabalho e Previdência Social no governo Costa e Silva, sendo mantido no cargo pela Junta Militar de 1969 que assumiu o poder após o afastamento do presidente da República até que o presidente Emílio Garrastazu Médici o nomeou ministro da Educação, de 30 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974. Em sua atuação como ministro de estado foi signatário do Ato Institucional Número Cinco em 13 de dezembro de 1968. É de autoria, do então Ministro Jarbas Passarinho, a célebre frase que dirigiu ao Presidente Costa e Silva por ocasião da assinatura do AI-5: “Sei que a Vossa Excelência repugna, como a mim e a todos os membros desse Conselho, enveredar pelo caminho da ditadura pura e simples, mas me parece que claramente é esta que está diante de nós. […] Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”.

Em 14 de novembro de 1969 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, em 2 de março de 1971 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e em 2 de novembro de 1972 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública de Portugal.

Reeleito senador em 1974 foi um dos poucos arenistas a vencer no pleito daquele ano e com o passar dos anos foi um dos fundadores do PDS e presidiu o Senado Federal (1981-1983) durante o governo João Figueiredo. Sua liderança foi posta à prova a partir do cisma entre ele e Alacid Nunes, outrora seu maior aliado. Progressivamente afastados cada um usou de influência para controlar o PDS local e como Passarinho dispunha do apoio de Brasília os alacidistas apoiaram e elegeram o deputado federal Jader Barbalho governador do Pará em 1982, mesmo ele sendo filiado ao PMDB. No mesmo ano Passarinho foi derrotado por Hélio Gueiros na disputa pelo Senado. Um ano depois foi nomeado ministro da Previdência Social pelo presidente João Figueiredo entre 14 de novembro de 1983 e 15 de março de 1985.

Por ocasião das eleições de 1986 aceitou uma coligação com o PMDB de Jader Barbalho e nisso Hélio Gueiros foi eleito governador com Almir Gabriel e Jarbas Passarinho eleitos senadores, porém o acerto não o demoveu de fazer oposição ao governo José Sarney. Eleito presidente do diretório nacional do PDS, renunciou pouco antes das eleição presidencial de 1989.

Em 26 de novembro de 1987 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito de Portugal.

Ministro da Justiça no governo Fernando Collor de 13 de outubro de 1990 a 2 de abril de 1992, deixou o cargo antes das investigações que resultariam no impeachment presidencial. Seu papel de maior relevo foi o de presidente da CPI do Orçamento, todavia esse fato não impediu sua derrota quando concorreu ao governo do Pará pelo PPR em 1994 derrotado por Almir Gabriel.

“Se desse a desgraça de o Lula morrer hoje, parava tudo isso”, diz Carlos Araújo; por Joyce Heurich e Roberto Caloni/Beta Redação – Unisinos

“Se desse a desgraça de o Lula morrer hoje, parava tudo isso”, diz Carlos Araújo; por Joyce Heurich e Roberto Caloni/Beta Redação – Unisinos

Economia Notícias Poder Política Vídeo

Era fim de tarde de quinta-feira (19), fechava uma semana desde a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff no Senado e do consequente afastamento da presidente do poder…

O motivo de tanta procura pelo ex-deputado estadual do PDT, hoje apenas filiado ao partido, tem explicação. Na posição de ex-marido de Dilma Rousseff, Araújo é rotulado pela imprensa, de modo geral, como “conselheiro” dela. Ele, no entanto, nega o título: “Somos amigos, o conselheiro dela é o Lula”. Além da fama de consultor, é para a casa dele que a presidente, afastada do cargo desde o dia 12 de maio, costuma ir quando visita Porto Alegre. No dia seguinte ao afastamento, Dilma viajou para a capital gaúcha e passou o fim de semana em família na casa de Araújo, onde almoçou com a filha Paula Rousseff de Araújo e os dois netos…

Nessas ocasiões, Araújo diz que evita falar sobre política, já que a presidente visita o Estado para descansar. Ainda assim, entre uma conversa e outra, a ex-esposa compartilha com ele como se sente sobre o ocorrido e comenta estratégias para tentar preservar o mandato. Sobre isso e sobre o que está em jogo por trás do impeachment, Carlos Araújo falou à Beta Redação no vídeo. Confira outras informações em betaredacao.com.br .

Arquivos inéditos detalham tortura no regime militar, Jamil Chade/O Estado de São Paulo

Arquivos inéditos detalham tortura no regime militar, Jamil Chade/O Estado de São Paulo

Comunicação Mundo Notícias Poder Política

Relatos expõem “ciência”da totura na ditadura militar. Como eram os métodos para prolongar o sofrimento, monitoramento da resistência do torturado e até jacaré em celas. Documentos inéditos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha revelam em detalhes sessões de tortura promovidas pelo regime militar de 1965 a 1975, informa Jamil Chade, em O Estado de São Paulo.

Jornalista doa acervo particular sobre ditadura ao Estado

Jornalista doa acervo particular sobre ditadura ao Estado

Cidade Comunicação Cultura Direito Notícias Poder Política

Nesta terça-feira, 19, a Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul recebeu a doação do acervo particular de livros sobre a ditadura militar no Brasil do jornalista José Mitchel. Mais de 200 títulos foram entregues pelo profissional em cerimônia que faz parte da programação da Semana Estadual do Livro.

A diretora da Biblioteca Pública, Morganah Marcon, informou ao Coletiva.net que as obras mostram os dois lados da história e que serão muito importantes para a preservação da memória. “São muitos livros e documentos, inclusive materiais escritos pelo próprio Mitchel que, com certeza, serão muito bem aproveitados aqui na biblioteca”, falou.

Segundo Morganah, a motivação do jornalista foi preservar esse acervo com olhar jornalístico e compartilhá-lo com a sociedade. “O melhor lugar é uma biblioteca pública, aonde o material estará disponível gratuitamente para a comunidade”, falou.

Mitchel foi correspondente do Jornal do Brasil em Porto Alegre durante a ditadura e atuou como produtor da RBS TV. Ao longo de sua trajetória, foi reconhecido com o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, concedido pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos, com a reportagem publicada no Jornal do Brasil sobre a Operação Condor – aliança político-militar criada para reprimir a resistência aos regimes ditatoriais instalados nos seis países do Cone Sul. (Coletiva.net)

Entrevista de Bolsonaro na Rádio Guaíba é marcada por protestos e apoio de público

Entrevista de Bolsonaro na Rádio Guaíba é marcada por protestos e apoio de público

Cidade Comportamento Comunicação Direito Notícias Poder Política Porto Alegre

A entrevista do deputado federal Jair Bolsonaro (PP) ao programa Esfera Pública, da Rádio Guaíba, rendeu protestos e vivas ao político em frente ao Estúdio Cristal. Desde a primeira fala, o parlamentar mostrou estar disposto à polêmica: “as minorias tem de se curvar às maiorias”. Com essa declaração, o progressista (que pensa em deixar a legenda e ingressar no PSC) abriu caminho para reafirmar posicionamentos referentes à contrariedade aos direitos humanos e àquilo que chamou de “doutrinação homossexual” nas escolas.

No decorrer do discurso, Bolsonaro ainda reafirmou que deve ser candidato à Presidência em 2018. A partir disso, garantiu que, se eleito, vai nomear um general do Exército para o Ministério da Educação. Também defendeu que o ideal para o produtor rural defender a propriedade contra o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) é o direito ao porte de fuzil.

As declarações polêmicas fizeram o deputado ser ovacionado e criticado. Gritos de “mito” e “fascista” foram ouvidos durante boa parte do programa. Os vidros do Estúdio Cristal também foram tomados por cartazes com dizeres contrários e favoráveis ao parlamentar. Da entrevista, Bolsonaro seguiu para a Assembleia Legislativa.

Militar da reserva, o deputado, de 60 anos, está na Capital para participar da troca de comando no Comando Militar do Sul e de uma audiência pública que discute uma “perspectiva de novo País”, organizada por três deputados do PP – Luiz Carlos Heinze, Adolfo Brito e Covatti Filho. (Reportagem e foto: Ananda Müller/Rádio Guaíba)

Movimento de Direitos Humanos vai pedir que Fortunati vete criação do bairro Costa e Silva

Movimento de Direitos Humanos vai pedir que Fortunati vete criação do bairro Costa e Silva

Notícias

A criação de 15 novos bairros em Porto Alegre motivou uma polêmica entre os cidadãos. Um dos nomes aprovados pelos vereadores para delimitar área da zona Norte da cidade é o Costa e Silva, formado pela região entre os bairros Sarandi e Rubem Berta, a partir da avenida Baltazar de Oliveira Garcia. O presidente do movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke(foto), disse que vai pedir ao prefeito José Fortunati que vete a homenagem ao presidente que governou o país durante o Regime Militar.

Conforme Krischke, a prefeitura não pode adotar essa denominação e, ao mesmo tempo, participar do Marcas da Memória, em conjunto com o movimento de justiça. O projeto sinaliza com placas locais da Capital em que houve tortura durante a ditadura. “É absolutamente incompatível com essa postura criar um bairro com essa nomenclatura”, apontou o conselheiro. A proposta de criação do bairro com o nome do militar é do Executivo. A localidade com a mesma denominação já existia. No site dos Correios, consta o nome Loteamento Presidente Costa e Silva para a mesma localidade.

A vereadora Mônica Leal, que usou a tribuna para defender a manutenção do nome, justificou que a população local é favorável à nomenclatura já adotada. Disse ainda que é preciso “considerar que esses nomes fazem parte de toda e qualquer sociedade, de modo que não podem ser simplesmente apagados”.

Relembre

Com 29 votos favoráveis e duas abstenções, a Câmara Municipal de Porto Alegre aprovou, com emendas, nessa segunda-feira, o projeto de lei do Executivo que traça nova delimitação dos bairros em Porto Alegre, criando mais 15 e extinguindo dois. Com a proposta, que vai agora à sanção do prefeito José Fortunati, o número de bairros passa de 79 para 94. (Samuel Vettori/Rádio Guaíba)

Volks busca reparar apoio à repressão na ditadura. Petrobrás na mira

Direito Economia Notícias

A Volkswagen é a primeira empresa a negociar judicialmente uma reparação por ter financiado ou participado da repressão à oposição política e ao movimento operário durante a ditadura militar no Brasil. Manfred Grieger, um diretor da matriz do grupo que no dia 14 participou de encontro no Ministério Público Federal (MPF), contou ao Estado que a empresa estuda, entre algumas

Cavalaria da PM cerca empresa durante greve de 1979.
Cavalaria da PM cerca empresa durante greve de 1979.

iniciativas, fazer um memorial com outras instituições brasileiras. Documentos apresentados à Comissão Nacional da Verdade e ao MPF denunciam tortura no interior da montadora de operários ligados a partidos comunistas, doação de carros ao 2° Exército e envio de detalhes sobre a atuação de grevistas ao Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops-SP).

Petrobrás na mira

O próximo alvo do grupo que representou contra a Volkswagen no Ministério Público Federal é a Petrobrás. A estatal é acusada de contribuir para a prisão de petroleiros que, depois, foram impedidos de trabalhar na empresa.  A reportagem completa em O Estado de São Paulo.

Morte de Vladimir Herzog completa 40 anos neste domingo

Morte de Vladimir Herzog completa 40 anos neste domingo

Comunicação Notícias

A morte do jornalista Vladimir Herzog completa 40 anos neste domingo (25). Ele era diretor do telejornal “Hora da Notícia”, veiculado pela TV Cultura de São Paulo. Segundo foi reconhecido depois, Vlado foi morto sob tortura pelos militares após ser detido nas dependências do Destacamento de Operação de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOPS/SP) . Ele deixou viúva a esposa Clarice, com os dois filhos do casal, Ivo, na época com 9 anos, e André, com 7.

A comoção causada pela morte do jornalista reaglutinou diversos setores da sociedade e provocou a primeira reação popular contra os excessos do regime militar. Por esse motivo, a data de morte foi escolhida para celebrar a democracia no país, sendo considerada o “Dia da Democracia”.

Jornalista virou símbolo da luta contra a tortura nos porões da ditadura militar
Jornalista virou símbolo da luta contra a tortura nos porões da ditadura militar

Um marco desse processo foi o ato ecumêmico realizado na Catedral da Sé. Realizado cerca de uma semana após a morte de Herzog, o ato, que  teve a presença do rabino Henry Sobel e do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, reuniu milhares de pessoas para homenagear o jornalista, em um protesto silencioso contra o regime.

Circunstâncias da morte

Divulgada como suicídio em comunicado do II Exército na época, com a utilização de uma foto forjada, a versão das circunstância em que Valdo morreu –  também mantida pelo Inquérito Policial Militar (IPM) realizado naquele ano – foi desmontada ao longo dos anos. Com uma ação declaratória realizada no ano seguinte, Clarice Herzog conseguiu, em outubro de 1978, a condenação da União pela prisão arbitrária, tortura e morte de Vladimir.

Em 2013, como parte dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a família conseguiu a retificação do atestado de óbito onde consta que a morte do jornalista se deu em função de “lesões e maus tratos sofridos durante os interrogatórios em dependência do II Exército (DOI-CODI)”.

O relatório final da comissão aponta “não existir mais qualquer dúvida acerca das circunstâncias de Vladimir Herzog, detido ilegalmente, torturado e assassinado por agentes do Estado nas dependências do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, em outubro de 1975”.

Em setembro de 2014, a equipe de peritos da comissão concluiu laudo pericial indireto sobre a morte do jornalista, que constatou a  evidência de duas marcas distintas na região cervical, determinante para os peritos afirmarem o seguinte: “Vladimir Herzog foi inicialmente estrangulado, provavelmente com a cinta citada pelo perito criminal e, em ato contínuo, foi montado um sistema de forca uma das extremidades foi fixada a grade metálica de proteção da janela e, a outra, envolvida ao redor do pescoço de Vladimir Herzog, por meio de uma laçada móvel. Após, o corpo foi colocado em suspensão incompleta de forma a simular um enforcamento”.

Segundo o relatório da Comissão da Verdade, Vlado foi morto pela “Operação Radar”, que tinha o objetivo de localizar e desarticular a infraestrutura do Partido Comunista do Brasil (PCB) em todo o território nacional e foi responsável pela morte de 20 militantes do partido entre 1974 e 1976, 11 deles ainda desaparecidos.

Prisão

Vladimir Herzog, então diretor do telejornal Hora da Notícia, foi procurado por agentes da repressão em casa e no trabalho no dia 24 de outubro de 1975. Preocupada com a estranha visita, a esposa Clarice se dirigiu à TV Cultura onde Herzog acompanhava o fechamento e veiculação do telejornal que dirigia. Dois agentes o esperavam do lado de fora. Com intervenção de colegas e da direção da TV Cultura, Herzog não foi levado naquele dia e se prontificou a se apresentar na manhã seguinte aos militares na rua Thomás Carvalhal, 1030, sede do DOI. No dia 25, ele se apresentou conforme o combinado e ficou detido para interrogatórios, de onde não saiu com vida.

Antes do conhecimento da morte, os colegas de Vlado souberam da detenção por meio de uma nota do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, então presidido pelo alagoano Audálio Dantas. Além de anunciar a prisão de Vlado, a nota publicada no dia 26 em alguns jornais trazia o nome de mais 10 jornalistas que estavam em poder dos militares, todos presos naquele mês. Em uma reportagem completa sobre o caso publicada um mês depois no Jornal Ex, Mylon Severiano, Narciso Kalili e Palmério Dória, editores do veículo e colegas de Herzog traçaram a seguinte descrição sobre ele.

“O Vlado chegava sempre no meio da tarde, aí pelas 4 e meia. Naquela época ele era uma espécie de secretário do telejornal. Era de chegar trabalhando: pegava a pauta, lia imediatamente com uma atitude muito sua, a de coçar alguns cabelos do alto da cabeça, de pé, e o papel na outra mão. Sua função era editar e botar no ar o telejornal que nós fazíamos, com uma equipe de mais de 20 pessoas. Ou seja, às 21 horas em ponto, com script na mão, ele acompanhava da técnica os 30 minutos de “Hora da Notícia”, como um responsável e representante da redação, ali na hora, no estúdio”.

No dia seguinte chegava a nota oficial do II Exército, informando a morte do jornalista e apontando que ele teria se suicidado. O primeiro questionamento a essa versão partiu do sindicato em São Paulo. Além de informar que Vlado tinha sido procurado por agentes de segurança no dia 24 por volta das 21h30 e se apresentado espontaneamente no dia seguinte, a nota apontava a responsabilidade dos agentes pela morte de Vlado e questionava o modo arbitrário pelo qual ocorriam as prisões de jornalistas.

“Não obstante as informações oficiais fornecidas pelo II Exército, em nota distribuída à imprensa, o Sindicato dos Jornalistas deseja notar que, perante a lei, a autoridade é sempre responsável pela integridade física das pessoas que coloca sob sua guarda. O Sindicato dos Jornalistas, que ainda aguarda esclarecimentos necessários e completos, denuncia e reclama das autoridades um fim a esta situação em que jornalistas profissionais, no pleno, claro e público exercício de sua profissão, cidadãos com trabalho regular e residência conhecida, permanecem sujeitos ao arbítrio dos órgãos de Segurança, que os levam de suas casas, ou de seus locais de trabalho, sempre a pretexto de que irão apenas prestar depoimento, e os mantém presos, incomunicáveis, sem assistência da família e jurídica, por vários dias e até por várias semanas em flagrante desrespeito à lei”.

Vida de Herzog

Vlado Herzog nasceu em Osijek na Iugoslávia em 27 de junho de 1937 e se mudou para o Brasil com a família para fugir da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Naturalizado brasileiro, mudou seu nome para Vladimir.

Vlado se formou em Filosofia pela Universidade de São Paulo em 1959 e, desde então, exerceu a atividade jornalística em diferentes veículos de imprensa e também no cinema. Ele iniciou a carreira jornalística como repórter do jornal O Estado e S. Paulo e participou do grupo responsável pela instalação da sucursal de Brasília do jornal. Em 1962, conheceu a estudante de ciências sociais Clarice Chaves, com quem iria se casar em fevereiro de 1964, cerca de dois meses do golpe militar.

Em 1963, filmou no Rio de Janeiro o documentário “Marimbás” , primeiro filme brasileiro a utilizar som direto. Em 1965, gerenciou a  produção do curta-metragem “Subterrâneos do Futebol” (1965), de Maurice Capovilla; e o início do roteiro do filme “Doramundo”, que só viria a ser filmado depois da morte dele por João Batista de Andrade. O mesmo cineasta homenageou Vlado com um documentário 30 anos depois.

Entre as primeiras consequências do regime militar na vida do casal, está a ida para Londres em 1965 onde Vlado foi contratado pela BBC. Na Inglaterra, nasceram os filhos do casal, Ivo e André. Ele voltou ao Brasil em 1968 e passou a atuar como editor da revista Visão. Em 1972, trabalhou pela primeira vez na TV Cultura.