FHC fala de ‘estelionato eleitoral’ na eleição de 1998; por Fernando Canzian/Folha de São Paulo

FHC fala de ‘estelionato eleitoral’ na eleição de 1998; por Fernando Canzian/Folha de São Paulo

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Fernando Henrique Cardoso admite em “Diários da Presidência – 1997-1998”, segundo volume de suas memórias, que seu governo omitiu o maior problema a abalar as finanças do Brasil durante sua campanha à reeleição: o real estava sobrevalorizado, mas falar nisso poderia causar dano eleitoral ao tucano.

Dez dias antes de vencer em primeiro turno a eleição de 1998, com 53% dos votos válidos, FHC registra em suas gravações o que chama de “reflexão ultrassecreta”.

“Há um ponto que os críticos não pegaram, só um ou outro economista percebeu. Tudo isso que digo –deficit fiscal e tudo mais– é um pouco meia verdade. Não que não exista deficit a ser combatido, mas a questão que nunca foi posta [pelo governo] é a cambial. É a questão central”.

Nas 870 páginas do novo volume da Companhia das Letras, que chega às livrarias no dia 23, FHC realimenta uma das maiores polêmicas de seus dois mandatos. Houve o chamado “estelionato eleitoral” em 1998?

FHC venceu em 4 de outubro daquele ano em meio a uma forte crise externa, fuga de dólares do país (que chegou a US$ 600 milhões ao dia) e juros básicos do Banco Central em 42% ao ano. A taxa hoje, considerada muito elevada, é de 14,25%.

Além de sofrer efeitos do terremoto externo, com epicentro na Rússia, o Brasil padecia com a política de manter sua moeda valorizada desde o Plano Real. O programa vinha estabilizando a inflação desde 1994, evitando que a cotação do real se distanciasse muito da do dólar.

Para manter a moeda americana barata, e o poder de compra do real elevado, a gestão FHC subiu radicalmente os juros, na tentativa de atrair capitais externos e de desestimular a sua fuga.

A estratégia teve forte impacto na dívida pública e exigiria cortes de despesas e altas de impostos à frente.

No livro, fica clara a estratégia de FHC de só passar a falar abertamente da necessidade de ajuste fiscal, com mais impostos, quando as pesquisas (em setembro de 1998) mostravam que ele venceria no primeiro turno. A reportagem completa está na Folha de São Paulo.