Eleições 2016: Luciana Genro cogita questionar edital do transporte público. Pré-candidata do PSol abriu série de entrevistas para o A Cidade É Sua, a dez meses das eleições

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Dez meses antes das eleições, o programa A Cidade É Sua, da Rádio Guaíba começou hoje a ouvir os candidatos à Prefeitura de Porto Alegre em potencial. O ano marca a corrida pela sucessão do prefeito José Fortunati (PDT), que não pode disputar a reeleição.

Confirmada como candidata pelo PSol, Luciana Genro respondeu sobre temas como segurança, transporte, infraestrutura e moradia popular. Inicialmente, ela defendeu a possibilidade de se fazer política sem roubo.

Na próxima sexta-feira, o vice-prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, que já confirmou ser candidato pelo PMDB, vai ser o segundo entrevistado. Confira trechos da entrevista de hoje:

Transporte

“É possível reduzir o valor da tarifa de ônibus de Porto Alegre. Na Carris, nós temos uma situação muito ruim, pois há poucos funcionários que ganham muito dinheiro e os demais ficam à margem.

Eu gostaria que a Carris fosse responsável por toda frota de Porto Alegre. Sobre o edital, a mudança real é que as pessoas vão sentir com a licitação são dois reajustes na tarifa. Vamos estudar juridicamente também a possibilidade de anular essa licitação”.

Metrô

“Ano após ano, os candidatos fazem propagandas sobre o metrô de Porto Alegre. Mas, metrô que é bom, nem sombra. Por isso, temos que lutar para que o metrô se realize de fato. Os BRTs – sistema de transporte público baseado no uso de ônibus de tráfego rápido – pode ser uma opção, mas não basta ter apenas ônibus, precisamos lutar pelo metrô. Além disso, o aeromóvel pode ser uma alternativa”.

Segurança

“Esse problema é gravíssimo e nos remete à situação do Estado, de falta de brigadianos e chamamentos suspensos. A Prefeitura precisa trabalhar de forma integrada com o Governo do Estado. Gostaria que nós tivéssemos uma mudança completa na nossa polícia, incluindo a Guarda Municipal, porque a polícia também é uma vitima deste processo. Parte dos policiais trabalha com coletes vencidos ou em viaturas ruins. Mas, também não podemos ter uma polícia que fuzile um engenheiro após romper uma barreira, sendo que isso acontece todos os dias em vilas de Porto Alegre”.

Serviço social

“A assistência social de Porto Alegre está desmantelada em uma situação gravíssima. A Prefeitura não tem programa próprio e, por isso, precisamos fortalecer o o sistema de assistência social”.

Funcionalismo

“A gente tem uma falta de valorização do funcionalismo público. Os cargos de confiança (CC) vem de fora e muitas vezes estão tomando conta do serviço. Queremos reduzir drasticamente os CCs, mas sem afetar o serviço público. Vamos valorizar o concursado que é um profissional que vai investir na carreira, ao contrário de um CC. É inaceitável que as pessoas fiquem sem água porque o DMAE não tem funcionários”. (Lucas Rivas/Rádio Guaíba)

Correio do Povo: Manuela D’Ávila lidera disputa eleitoral em Porto Alegre

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A pesquisa realizada em Porto Alegre teve por objetivo avaliar a opinião da população da Capital sobre a administração municipal. Foram apresentados três cenários aos eleitores. Segundo os dados da consulta, a deputada estadual do PC do B, Manuela D´Ávila, venceria o pleito nos diversos cenários, incluindo eventual segundo turno onde ganharia mesmo com alternância de candidatos.

No primeiro cenário, Manuela D´Ávila lidera a pesquisa com 25,3%, pouco mais que o dobro da segunda colocada, a ex-candidata do PSol à Presidência da República, Luciana Genro, que aparece com 12,2% dos votos. Em terceiro lugar estaria o deputado federal do Dem Onyx Lorenzoni (9,7%), seguido da deputada federal do PT Maria do Rosário (9,1%) e do secretário de Educação do governo Sartori, Vieira da Cunha (PDT), com 8,7%, vindo a seguir o vice-prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, do PMDB, com 5,7%; o presidente estadual do PSB, Beto Albuquerque, com 4,8%; o presidente estadual do PSDB, Nelson Marchezan Júnior, com 3,8% e Kevin Krieger, com 1,6%, presidente do PP em Porto Alegre. Neste pesquisa estimulada, 9,1% disseram não saber em quem votariam e 10,1% revelaram que não votariam em nenhum dos candidatos apresentados.

Em um segundo cenário, com o ingresso do senador Lasier Martins (PDT), da ex-governadora Yeda Crusius (PSDB), do deputado federal Henrique Fontana (PT) e do deputado estadual Marcel Van Hatten (PP) como eventuais candidatos, Manuela D´Ávila segue na liderança, com 26,4%, seguida de Lasier Martins com 13,8%.

No terceiro cenário, quando é citado o nome de Nelson Marchezan Júnior (PSDB) no lugar da ex-governadora Yeda Crusius (PSDB), Manuela D’Ávila mantém a liderança com 26,8%, vindo logo a seguir Luciana Genro, com 13,6%.

A pesquisa também consultou os eleitores sobre a possibilidade de segundo turno nas eleições. Em três cenários pesquisados, quando Manuela D’Ávila disputaria com Luciana Genro (PSol), Onyx Lorenzoni (Dem) ou Maria do Rosário (PT), a candidata manteria a liderança em qualquer uma das situações. Em razão da mudança no cenário no município de Canoas, o Correio do Povo não publicará os resultados da pesquisa eleitoral realizada antes da nova situação.



Manuela e Luciana lideram corrida eleitoral em Porto Alegre

Manuela e Luciana lideram corrida eleitoral em Porto Alegre

Notícias Poder Política

A pouco menos de um ano das eleições municiais de Porto Alegre, o Instituto Methodus,corrida  em parceria com o Correio do Povo, foi ouvir a opinião dos moradores da Capital sobre suas preferências eleitorais. No questionamento espontâneo, onde o eleitor cita o nome do candidato em quem gostaria de votar para prefeito sem ser estimulado com possíveis nomes, ainda temos um percentual de 63,9% que não definiram sua opção de voto. Entre os nomes mais citados estão o prefeito José Fortunati (que não poderá concorrer novamente) com 8,5%, seguido de Manuela d’Ávila com 3,4% e Olívio Dutra com 2,8% dos votos. Este número ainda alto de indecisos mostra que a eleição está em aberto e vários nomes podem chegar ao segundo turno.

No primeiro cenário estimulado, onde é apresentado ao entrevistado um disco contendo os nomes de possíveis candidatos, a deputada estadual Manuela d’Ávila (PCdoB) é a mais citada pelos entrevistados com 23,9%, seguida por Luciana Genro (PSol) com 14,5%, Vieira da Cunha (PDT) com 10,2%, Sebastião Melo (PMDB) com 8,1%, Beto Albuquerque (PSB) com 7,8%, e Nelson Marchezan Jr. (PSDB) com 6,5%. Ainda estão em dúvida 11,9% dos eleitores e declararam votar branco ou nulo 17,1%.

No segundo cenário apresentado, onde é suprimido o nome da deputada Manuela d’Ávila, Luciana Genro assume a liderança com 19% dos votos, seguida por Vieira da Cunha com 12,7%, Maria do Rosário com 10,1%, Beto Albuquerque com 9,3%, Sebastião Melo com 8,5% e Nelson Marchezan Jr. com 6,8%. Indecisos são 14,5% e branco/nulo 19,1%.

No terceiro cenário eleitoral, Luciana Genro permanece em primeiro lugar com 19,8% dos votos, seguida por Vieira da Cunha com 12,9%, Beto Albuquerque com 9,5%, Raul Pont com 9%, Sebastião Melo com 8,2% e Nelson Marchezan Jr. com 7,3%. Indecisos são 14,8% e branco/nulos ficam em 18,5%.

Quanto à rejeição, a deputada federal Maria do Rosário (PT) apresenta o maior percentual com 32,4%, seguida por Luciana Genro com 24,7%, Raul Pont (PT) com 24,6%, Manuela d’Ávila com 21,1%, Nelson Marchezan Jr. com 17%, Sebastião Melo com 16,2%, Beto Albuquerque com 13,1% e Vieira da Cunha com 10,9%.

Segundo o diretor do Instituto Methodus, Jefferson Jaques, os dados que mais chamam a atenção na pesquisa são a liderança de Manuela d’Ávila e o crescimento de Luciana Genro quando o nome de Manuela sai de cenário.




Luciana Genro defende necessidade de rediscutir sistema político brasileiro. Líder do Psol não vê força no movimento pró-impeachment(Pamela Mascarenhas/Jornal do Brasil)

Luciana Genro defende necessidade de rediscutir sistema político brasileiro. Líder do Psol não vê força no movimento pró-impeachment(Pamela Mascarenhas/Jornal do Brasil)

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Luciana Genro não vê força no movimento pró-impeachment e acredita que este não representa, por exemplo, os interesses da burguesia brasileira. Líderes de partidos de oposição de direita lançaram nesta semana o Movimento Pró-Impeachment, com uma petição eletrônica para recolher assinaturas. A presidenta da Fundação Lauro Campos, ex-deputada, uma das fundadoras do Psol, quarta colocada nas eleições presidenciais do Brasil em 2014, não descarta, contudo, que a situação possa evoluir para uma gravidade maior, que possa transformar a queda de Dilma em uma possibilidade real. Ela também critica a “indignação seletiva” com a corrupção e defende a necessidade de rediscutir o sistema político.

A necessidade real do país, defende Luciana Genro, seria uma rediscussão do conjunto das instituições, uma Assembleia Popular Constituinte que fosse eleita sob novas regras, sem o dinheiro das empreiteiras e dos bancos, e sem diferença na cobertura da mídia. “Só que um processo como esse não nasce de um Parlamento reacionário e conservador como o que nós temos”, atesta.

Em entrevista por telefone, ela também comentou sobre a trajetória da esquerda em países latino-americanos e na Grécia, falou dos reflexos de uma “fraqueza do governo e do PT” e apontou Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, como o representante de uma máfia política e do que há de mais reacionário no cenário político.

“A fraqueza do governo e do PT que têm permitido o crescimento de figuras como o Eduardo Cunha. Mas eu vejo que os dias dele, com a força política que ele tem, estão contados, principalmente agora com a delação do Fernando Baiano que deve entregar esse jogo todo do PMDB e com isso levar o Eduardo Cunha também para as margens da política”, alerta.

Luciana Genro chamou atenção ainda para os limites da atuação do seu partido, o Psol. “Eu não tenho dúvida que muitos dos que se decepcionaram com a Dilma procuram uma alternativa que não seja o retrocesso ao PSDB no poder. (…) mas para nós é muito difícil, porque a falta de estrutura e até mesmo de cobertura da grande mídia, para as nossas iniciativas políticas e opiniões, nos prejudica muito.”

Confira a entrevista, na íntegra:

Jornal do Brasil – O fato de que teríamos um Congresso conservador já era bem claro desde as eleições, e pautas conservadoras acabaram ganhando espaço rapidamente. Como você tem percebido a atuação da Câmara dos Deputados? O que essa configuração acarreta para o país?

Luciana Genro – Eu acho que o crescimento dessa bancada conservadora é resultado, por um lado, do abandono do PT das bandeiras que o partido historicamente defendeu, que foram relegadas ou ao segundo plano ou diretamente abandonadas, como foi o fato da Dilma ter suspendido o kit anti-homofobia nas escolas, como é o fato de ter permitido, silenciado, melhor dizendo, diante da decisão do Supremo de manter a anistia aos torturadores, que são pautas democráticas que o PT carregou ao longo da sua história, e defendeu com muita força e que, ao eles abandonarem, essas pautas acabaram sendo alvo de uma reação dos conservadores.

Porque, na realidade, eu vejo que do ponto de vista social nós avançamos nessas pautas que hoje o Congresso tenta fazer retroceder. Por exemplo, a pauta LGBT é uma pauta que se avançou muito nos últimos tempos, as pessoas “saíram do armário” com muito mais frequência e legitimidade do que faziam alguns anos atrás. A discussão da maconha, por exemplo, e a possibilidade do STF descriminalizar o porte ganhou muito apoio na sociedade.

Então eu vejo que há uma reação conservadora, uma contraofensiva conservadora, e esses políticos, que representam esses setores, eles têm mais dinheiro, têm mais estrutura do que as lideranças dos movimentos sociais que defendem essas pautas. Portanto, eles conseguem obter maior sucesso eleitoral. Mas eu não creio que na sociedade eles sejam efetivamente majoritários.

Jornal do Brasil – Como você analisa a atuação do presidente da Casa, Eduardo Cunha, especificamente?

Luciana Genro – O Eduardo Cunha, para mim, representa um tipo de máfia da política, uma máfia que atua para defender os seus interesses, os interesses do seu grupo, dos grupos que financiam os seus interesses, e o fato de ele estar investigado é uma demonstração muito contundente desse caráter mafioso que ele tem. Além disso, representa o que tem de mais reacionário no cenário político brasileiro. Ele consegue criticar o PT pelo que o PT ainda tem de progressista nas suas pautas, e dá voz a esses segmentos mais fundamentalistas que são totalmente reacionários.

E ao mesmo tempo é um político que representa os interesses da manutenção desse modelo econômico. Então há uma estranha coincidência entre a política de ajuste defendida pelo Levy e a política de ajuste defendida pelo Eduardo Cunha. Há um encontro dessas duas visões, o que demonstra que justamente a fraqueza do governo e do PT que têm permitido o crescimento de figuras como o Eduardo Cunha. Mas eu vejo que os dias dele, com a força política que ele tem, estão contados, principalmente agora com a delação do Fernando Baiano que deve entregar esse jogo todo do PMDB e com isso levar o Eduardo Cunha também para as margens da política.

Jornal do Brasil – E como você viu esse rompimento dele com o governo? 

Luciana Genro – Eu acho que isso tudo faz parte de um jogo de interesses, um jogo de chantagens. Hoje ele não tem os seus interesses atendidos e rompe com o governo. Não representa uma ruptura que tenha fundamentos legítimos do ponto de vista político ou ideológico. É uma ruptura pragmática que tem em vista os interesses dele de defender a sua possibilidade de não ir preso e ao mesmo tempo esse jogo de emendas, recursos, cargos, que provavelmente não está sendo bem atendido pelo governo.

Jornal do Brasil – Você chegou a ser interpelada extrajudicialmente pela Câmara dos Deputados recentemente, por causa de um comentário no Twitter, de que os grandes traficantes estão, inclusive, no Congresso. Como está essa história?

Luciana Genro – Eu respondi a interpelação reafirmando o que eu havia dito e citando o exemplo do senador ‘Zezé’ Perrella, o helicóptero pertencente à família dele foi apreendido com 420 kg de cocaína. E o fato dele e do filho dele, que era diretamente o proprietário da empresa, não terem sido presos, confirma de forma muito explícita o que eu havia afirmado naquele tweet, de que essa política de guerra às drogas só atinge os pequenos traficantes. Na verdade atinge os operadores do tráfico e não os financiadores, que são os donos dos aviões, dos helicópteros e do dinheiro que banca o tráfico que depois vai para as favelas de forma pulverizada, em pequenos traficantes, que são os que acabam indo atrás das grades.

17/03/2009- Brasilia- DF, Brasil- Deputada Luciana Genro em sessão na Camara. Foto: Diogenis Santos/ Agencia Camara

Jornal do Brasil – Sobre o movimento de defesa da saída da presidente Dilma Rousseff do cargo, entre todos os capítulos desta história, qual a sua análise sobre esse Movimento Parlamentar Pró-Impeachment que foi lançado nessa última quinta-feira?

Luciana Genro – Eu tenho a impressão que esse movimento não representa os interesses da burguesia brasileira. Nós vimos inclusive vários representantes da burguesia se pronunciarem em semanas antecedentes dizendo que não queriam impeachment, desde setores ligados a bancos até setores ligados à indústria. Então, eu não vejo que isso seja um movimento que tenha força real dentro da classe dominante. Vejo que isso é assim porque não há interesse, de fato, da classe dominante no impeachment da Dilma, porque isso traria uma instabilidade política ainda maior do que a que se tem hoje e uma dificuldade maior em fazer o ajuste fiscal e garantir, portanto, o superávit primário para os pagar juros da dívida pública e seguir sustentando a especulação financeira, o rentismo, toda essa lógica da satisfação dos interesses do capital financeiro.

O Psol nunca se alinhou com nenhum movimento pró-impeachment, não porque nós achamos que o governo Dilma tem alguma coisa de bom, mas porque nós achamos que as opções que são colocadas à Dilma neste momento seriam opções que significariam um retrocesso ainda maior, um governo encabeçado pelo Michel Temer, ou pelo próprio Eduardo Cunha ou mesmo pelo Aécio, que pudesse vencer uma eleição feita às pressas, com um processo democrático bastante precário como é o que nós temos hoje.

Então, nós achamos que a necessidade real do país seria uma rediscussão do conjunto das instituições, do funcionamento do sistema político. Por isso eu defendo a necessidade de uma Assembleia Popular Constituinte, que já fosse eleita sob novas regras, sem o dinheiro das empreiteiras, sem o dinheiro dos bancos, sem essa diferença brutal que existe no tempo de televisão, na cobertura da mídia, e, aí sim, também, nessa conjuntura de rediscussão total das instituições e do funcionamento do país, também novas eleições para presidência.

Só que um processo como esse não nasce de um Parlamento reacionário e conservador como o que nós temos, ele só poderia nascer de um movimento com a força de mobilização de um junho de 2013. Só que essa pauta, infelizmente, não está colocada na cabeça das pessoas como uma necessidade. Então a gente sabe que nós entendemos como uma necessidade, mas a maioria do povo ainda não compreende esse processo dessa maneira. Por isso, é uma proposta que não tem uma possibilidade imediata de se realizar.

Jornal do Brasil – E essa tese de impeachment você acha que realmente não tem força para se concretizar, ou teria?

Luciana Genro – Eu acho que não. Embora a Operação Lava Jato nos coloque no nível do imponderável, porque não se sabe tudo o que ainda pode aparecer na Lava Jato, com as delações premiadas e com as investigações que a Polícia Federal ainda está fazendo.

Então, eu digo isso [que a tese de impeachment não tem força para se concretizar] tomando os elementos que estão agora objetivamente colocados, mas eu não descarto que a situação possa evoluir para uma gravidade maior e que de fato a queda da Dilma possa ser uma possibilidade real.

Jornal do Brasil – E essa questão da corrupção tem servido como um dos principais argumentos desse movimento, só que alguns dos defensores dessa ideia são envolvidos com denúncias e suspeitas de corrupção. O que está em jogo, na sua opinião?

Luciana Genro – Exatamente, é que a indignação desses setores com a corrupção é uma indignação seletiva, eles só enxergam a corrupção do PT então eles fecham os olhos para a corrupção que também fez parte do governo do Fernando Henrique, eles fecham os olhos para a corrupção que atinge lideranças do PSDB, como o próprio senador do PSDB, Aloysio [Nunes], que está também investigado, o próprio Aécio [Neves], que também surgiram suspeitas sobre ele, e essa indignação ela não se materializa, e o próprio Eduardo Cunha, que é o maior exemplo disso. Os movimentos que foram para a rua pedir o impeachment da Dilma deram apoio ao Eduardo Cunha.

Então, fica evidente que é uma indignação seletiva, que não tem uma vocação verdadeira de transformar o modelo político do país, é simplesmente uma disputa pelo poder, para que os que hoje se apropriaram da máquina pública saiam para que eles tomem conta e reproduzam os mesmos esquemas que eles faziam antes, que o PT seguiu fazendo, e que eles mesmos querem fazer de novo. Então, nesse jogo o Psol não entra.

Jornal do Brasil – E como você vê a atuação do vice-presidente Michel Temer e do PMDB neste cenário?

Luciana Genro – Eu vejo que o Michel Temer e o PMDB estão sempre à espreita de uma possibilidade de chegar diretamente ao poder. Acho que em alguns momentos há algum exagero da mídia em explorar declarações do Temer, mas eu não tenho dúvida de que o PMDB, seja o PMDB do Temer e seja o PMDB do Cunha, não são confiáveis para ninguém. Então, eles podem estar sempre querendo preparar algum tipo de bote político.

Jornal do Brasil – Luciana, você acredita que a gente está em uma crise política e econômica, como você analisa esse debate de crise que paralisa o país?

Luciana Genro – Sem dúvida. Nós estamos numa crise econômica muito profunda, que está levando a um aumento do desemprego, está levando a uma carestia, levando a um arrocho salarial, a uma situação calamitosa dos estados. Aqui, o Rio Grande do Sul está em situação falimentar, os servidores públicos, inclusive, tem os salários parcelados pelo governo Sartori. Isso não é uma exceção no Rio Grande do Sul, tem outros estados também na mesma petição de miséria, por causa daqueles acordos que federalizaram as dívidas estaduais, com cláusulas draconianas, onde os estados pagam, pagam, pagam e devem cada vez mais.

Então, a vida está muito dura para o povo. E ao mesmo tempo há uma crise política, porque a Dilma ao ganhar as eleições com um discurso de diferenciação com o PSDB, de suposta defesa dos interesses populares, ela simplesmente traiu esses compromissos. Então, ela perdeu de fato legitimidade junto ao povo. E obviamente que a direita explora essa falta de legitimidade, essa falta de apoio popular. Isso tudo forma um caldo que gera uma crise política também bastante grave.

Infelizmente, o Psol é um partido que ainda não tem uma força política social capaz de se apresentar como uma alternativa. Porque eu não tenho dúvida que muitos dos que se decepcionaram com a Dilma procuram uma alternativa que não seja o retrocesso ao PSDB no poder. Uma parte consegue enxergar o Psol, já enxergou, inclusive, nas eleições, e percebe pela atuação da nossa bancada parlamentar que há um partido ali que busca construir um terceiro campo, que não é nem o campo do governo e nem o campo da oposição de direita, mas para nós é muito difícil porque a falta de estrutura e até mesmo de cobertura da grande mídia, para as nossas iniciativas políticas e opiniões, nos prejudica muito.

Os jornais televisivos que são os mais assistidos mostram a posição do governo e a posição da oposição representada pelo PSDB, como se não houvesse uma oposição de esquerda ao governo. Então, fica difícil de ganhar corpo uma alternativa à crise política e econômica pela esquerda do governo, e, por isso, acaba que a direita é que se beneficia, a direita, o PSDB, nesse sentido lato de direita, se beneficiando dessa situação e tentando capitalizar para si o descontentamento popular.

Jornal do Brasil – Nesse sentido do que você disse agora, como você analisa o caminho que o Brasil vem seguindo em relação à trajetória de outros países latino-americanos e mesmo de alguns países europeus, como a Grécia e Espanha — agora, com o Podemos? 

Luciana Genro – Eu acho que os povos latino-americanos, o povo grego e uma parte hoje do povo espanhol estão buscando uma alternativa pela esquerda. A vitória de governos como foi a do PT no Brasil, como foi o Chávez na Venezuela, como foi o Equador, a Bolívia com o Evo Morales, isso tudo são tentativas do povo de construir uma alternativa, cada uma delas tem as suas características, os seus problemas, as suas qualidades, e eu acho que o Brasil acabou sendo, neste contexto latino-americano, um dos governos que menos propiciou mudanças estruturais.

Aqui, por exemplo, se manteve toda a estrutura política, oligárquica, de castas partidárias intocadas, coisa que não aconteceu, por exemplo, na Venezuela ou na Bolívia, que tiveram processos constituintes, onde o povo teve uma oportunidade maior de se expressar, onde se abriram canais mais democráticos como o próprio referendo revogatório, que foi, inclusive, aplicado na Venezuela numa ocasião, quando o Chávez ainda era presidente.

Mas esses processos ao não avançarem acabam também retrocedendo. Então hoje nós vemos na Venezuela o desastre que está acontecendo com o governo Maduro, inclusive com características autoritárias, se pronunciando de forma bastante contundente, então são governos que não conseguiram dar consequência a essa disposição do povo de fazer mudanças mais estruturais e de enfrentar os principais problemas que são gerados pelo modelo capitalista.

E a Grécia me parece que o Tsipras também padeceu de uma ilusão de que a União Europeia, de que o Banco Central Europeu iriam afrouxar as condições do ajuste diante da pressão do governo. E isso não aconteceu, então ele acabou refém de um plano que se ele de fato executar vai significar a morte da Syriza como uma alternativa política de esquerda. E eu tenho expectativa ainda de que haja uma reviravolta na situação política da Grécia, e acho que a plataforma de esquerda, os deputados que romperam com a Syriza, apontam um caminho, que é o caminho de ser consequente com que o povo disse no plebiscito, que é não aceitar mais sacrifícios para a população em nome dos interesses do capital financeiro.

Mas é tudo um jogo onde a correlação de forças é sempre desfavorável para os trabalhadores, para aqueles que não detém o poder econômico. Então, não é fácil também avançar nesse caminho.

(Fotos: Diógenis Santos/ Agência Câmara e Fábio Pozzebom/ Agência Brasil)