Porto Alegre, sábado, 02 de julho de 2022
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Conceição Evaristo: 'Se eu tivesse nascido noutra condição social, com outra epiderme, com certeza já estaria na literatura com mais facilidade'. Uma conversa sobre escrevivências e outros assuntos com a contista, romancista e poetisa

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Não faz muito tempo, aos 70 anos, a partir de uma iniciativa surgida dos coletivos de mulheres negras, ela buscou uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Pleiteava a cadeira de número 7, que tem o poeta Castro Alves como patrono. Foi uma candidatura que recebeu inúmeros abaixo-assinados de apoio na internet, com mais de 17 mil chancelas e mesmo com a maior campanha popular da história, perdeu a indicação para o cineasta Cacá Diegues. Nascida em Belo Horizonte, hoje com 75 anos, Maria da Conceição Evaristo de Brito iniciou a carreira literária aos 44.  Autora entre outros de Ponciá Vicêncio, Becos da Memória, Olhos D’Água, com livros traduzidos para o inglês, francês, árabe e espanhol, seus focos de abordagem são as mulheres negras, os retratos do cotidiano e da realidade do povo negro, com reflexões sobre desigualdade, opressões racial e de gênero, além da questão da ancestralidade africana.

Ela é a nova titular da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência da Universidade de São Paulo (USP), onde pretende ministrar uma educação literária mais ampla e inclusiva. Poeta, contista, romancista e teórica da literatura, dizer que é um exemplo de superação torna-se lugar-comum. Oriunda de uma família com oito irmãos, filha de lavadeira, trabalhou como empregada doméstica até concluir o curso normal. No Rio de Janeiro, concursada, iniciou a carreira no magistério. Formada em Letras, mestre e doutora em Literatura, sua obra é leitura obrigatória aos candidatos de diversos concursos vestibulares em todo o país.

Conceição já foi homenageada como Personalidade Literária do Ano pelo Prêmio Jabuti (2019), onde teve uma obra agraciada em 2015. Em 2018, pelo conjunto da obra, conquistou o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais. Ela será o quinto nome a assumir a cátedra, criada em 2015 pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, em parceria com o Itaú Cultural. No sábado(21), tive junto com o colega Diego Sarza a oportunidade de conversar com ela virtualmente, no BandNews TV.

Em quase meia hora de conversa, Conceição Evaristo falou sobre temas polêmicos e criação literária, em especial as suas ‘escrevivências’, termo maturado ao longo do tempo, num jogo de palavras entre escrever e viver (escrever-se vendo e escrever vendo-se, e daí surgiu a palavra escreviver, finalmente depurada até escrevivência). A expressão disseminou-se a partir de 2005, após um evento literário, onde ela afirmou que a escrevivência não era para adormecer a Casa-Grande, como as pretas de antigamente faziam ao contar histórias de ninar às crianças brancas filhas dos senhores de escravos, e sim para acordá-la de sonos injustos. Hoje, essas narrativas das vozes negras têm o objetivo contrário: “incomodar” e acordar os da casa-grande.

Ao assumir a titularidade da cátedra, segundo ela, a ideia é viabilizar um espaço para propor cursos de pós-graduação, atividades mais amplas como seminários e cursos, oficinas de criação e treinamento de professores, conciliando o estudo da literatura clássica com a produção que surge das classes populares. “A Academia é quem define quem serão os cânones da literatura, e a meta é trazer, cada vez mais, o que é das classes populares para esse ambiente acadêmico, fazendo com que esses lugares de fala, antes relevados a segundo plano, comecem a ser encarados, em definitivo, como protagonistas”.

Ao responder sobre o interesse dos jovens na literatura, a autora e pesquisadora lembrou que o RAP, assim como o samba, têm sido objetos de sua análise e apreciação, justamente porque se apropriam da língua portuguesa e trazem à tona o que verte da criação artística periférica. “Há várias formas de leitura, do livro às telas”, afirmou, revelando que é uma pessoa atrelada ao livro físico, por gosto pessoal, mas reconhece valor na produção que chega do mundo virtual. Também destacou que existem professores, e não são poucos, que já trabalham essa diversidade de vozes, indo do RAP a Carlos Drummond de Andrade. “Temos de pensar sobre esse texto que nasce de uma outra visão de mundo, e vai incidir também no direito à leitura, no direito à escrita. O saber universitário tem que ser pluriuniversal. Temos uma nova episteme, que até então nunca havia sido valorizada e as classes extra muros acadêmicos estão produzindo”.

Num dos pontos altos da conversa, Conceição falou sobre a influência da elite cultural no mundo acadêmico. “Os cursos universitários ainda estão presos e trabalham a partir de uma elite cultural. As quotas colocaram nas universidades um público que traz novas demandas”. Segundo ela, ainda não estamos no mundo ideal, mas já avançamos de forma significativa. “Aos 75 anos, preciso estar alerta ao que os jovens estão dizendo. O mundo não termina em mim”. Por fim, sobre o fato de ter conquistado reconhecimento após os 70 anos, resumiu numa frase enxuta de dois períodos curtos: “Se eu tivesse nascido noutra condição social, com outra epiderme, com certeza já estaria na literatura com mais facilidade”.

 

CONFIRA ABAIXO A ÍNTEGRA DA NOSSA CONVERSA