Porto Alegre, quarta, 29 de junho de 2022
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Porto Alegre e as placas de seus ônibus: uma conclusão empírica sombria, por Cássia Zanon*

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Todo mundo tem sua mania esquisita. Eu tenho muitas.

Uma delas, sabe Deus como começou, é relacionar as letras iniciais das placas de veículos (no Rio Grande do Sul, que é onde acompanho isso) com seus anos de fabricação. Quando começou eu sei: foi na troca das antigas placas amarelas (com duas letras e quatro números) pelas cinzas com três letras e quatro números.

Até hoje lembro do primeiro carro que a família teve com placa “nova”. Foi um Kadett vinho das minhas tias, em 1992. A placa começava com IAQ. No mesmo ano, meu pai comprou também um Kadett, este prata, com placas IAR. Em 1994, o Kadett virou um Corsa roxo (o carro que herdei quando meu pai querido se foi), com iniciais ICI. Eu achava um charme, a placa que falava francês.

Assim, usando os carros da família próxima como parâmetro, quando paro no trânsito, fico tentando deduzir os anos de fabricações dos carros ao redor. Teve o carro 1996 III, o 2004 ILU, o 2010 IQO, o 2014 IVE, o 2015 IWN. Hoje, pelo que entendo, estamos nas placas IZ_.

Além disso, desde novembro do ano passado, tem as placas Mercosul. E eu só sei que é novembro, porque por uma semana meu carro (semi)novo comprado naquele mês deixou de ter a placa nova (que eu acho sem graça, pois não informa a cidade, e a gente sequer pode ter o estranhamento de ver um carro de uma cidade do interior do Rondônia rodando por Porto Alegre, como já vi).
Mas o assunto deste texto nem é sobre esquisitices minhas.

Essa introdução toda foi para dizer que, outro dia, eu me dei conta de que achava nunca ter visto um ônibus em Porto Alegre com placa do Mercosul. O que indica que, pelo menos desde novembro de 2018, nenhum veículo novo passou a integrar a nossa combalida frota de transporte público.

Considerando que moro a 12 quilômetros do meu escritório e passo pelo menos uma hora em trânsito por dia, passei a observar isso. Não apenas não há ônibus com placas novas, como a MAIS NOVA que eu vi foi uma IXL. O que, pela minha metodologia empírica descrita acima, denota que o veículo em questão foi adquirido e emplacado em 2016. Ou seja: ANTES da eleição da atual administração municipal.

Aliás, para não dizer que não vi nenhuma placa do Mercosul em ônibus, anteontem eu vi uma sim. Mas começava com ISL. O que, imagino, queira dizer que aquele caco velho articulado que vi, provavelmente fabricado por 2012, foi adquirido pela empresa há menos de um ano. Usado.

Os amigos porto-alegrenses topam ajudar a caçar ônibus novos? O prefeito? Esse gosta de caçar pokémons…
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Neste momento, não vou (re)bater a tecla de que a capital gaúcha tem poucos ônibus (e poucas linhas), o que obriga muita gente que precisa percorrer a cidade por qualquer motivo a ter carros para não perder tempo demais da vida parado em pontos pelos quais passam carros a no mínimo cada meia hora, se tanto (meu caso). Mas que eu volto para falar nisso um dia, ah, volto.

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* Cassia Zanon, é  jornalista e tradutora. Este texto foi publicado originalmente no Medium.